sábado, 17 de novembro de 2007

o aquecimento global

está frio, mas não me queixo. afinal, quanto a isso de frio, é tempo dele. tamém, aqui há dias, estava um belo verão de são martinho e já se dizia por aí que vinha a fim-do-mundo a cavalo no aquecimento global. afinal, o aquecimento foi-se embora e ficou este frio de rachar.
é que agora, em questão de tempo meteorológico, não pode estar coisa nenhuma: se está frio, é o aquecimento global; se está calor, é o aquecimento global; se chove, aqui d'el rei, é o aquecimento global; e se não chove, imaginem só! , é o aquecimento global.
e pensava eu que o planeta era um organismo auto-regulado, capaz de responder às mordeduras do insignificante ser humano. mas não, o planeta está de cócoras, k.o.: todos os dias chegam provas provadas de que o planeta faliu. já não há nada a fazer: aqueceu e pronto. vale mais encomendarmos todos as nossas alminhas a Deus e esperar pola derradeira hora, calmamente. sem pânico.
qual quê! os montes estão cheios de ventoínhas da energia eólica, os campos fervem de milho e outras alpistas para biodísel, anda tudo numa fona a descobrir o seu nicho de negócio. não há sinais de que seja um investimento terminal. antes parece que a coisa promete rendimento.
à noite, olho pela minha janela e vejo o contorno das montanhas desenhado com as luzinhas vermelhas das eólicas. vou na auto-estrada e as ventoínhas lá estão a produzir energia e tamém a ventilar o ar, a arrefecer o ambiente escaldante deste inverno frio.
é claro que penso: é melhor assim do que aquela fumarada das cidades industriai; deve ser aborrecido, deve ser mesmo tóxico viver numa cidade cheia de fumo industrial. mas que diabo!, onde já se viu um planeta moribundo ser motivo de tanto movimento de negócio e desenvolvimento industrial?
fico a pensar: estas coisas estão ali por causa do aquecimento global, ou o aquecimento global está aqui por causa desta movimentação económica nouvelle vague?

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

os americanos ou a american way of shopping

Rio Grande do Sul, Porto Alegre. perto da cidade, visito uma uma loja de top na área do artesanato.
uma beleza. mas os lindos elefantes, rinocerontes e girafas, de madeira, de pedra sabão, sei lá, fazem-me comichão na moleirinha. e pergunto: "por que vocês vendem artesanato brasileiro figurando animais que não existem no Brasil?" resposta pronta: "nossos maiores clientes são os americanos. eles não sabem nada, não têm cultura. eles compram tudo. e a gente vende..."

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

um fisco europeu?

queixam-se os médicos espanhóis, e entre eles maioritariamente os galegos, das autoridades fiscais portuguesas. em resumo, eles conduzem em Portugal, onde residem e trabalham, os seus carros ou coches de matrícula espanhola. as autoridades portuguesas entendem que lhes é exigível o pagamento dos impostos sobre veículos que pagam os portugueses que residem e trabalham em Portugal. por sua vez, os médicos espanhóis alegam que somos todos cidadãos da União Europeia, que, entre outras prerrogativas, temos o direito de livre circulação de pessoas e bens e usamos a mesma moeda. pois é. tenhem ambos razão. o problema é que os Estados da União ainda tenhem Tesouro e Fisco próprios. cada qual tem o seu próprio Orçamento Geral do Estado. cada um tem ainda o direito de cobrar impostos por sua própria conta. e, sem dúvida, é um entrave de peso à percepção de uma União Europeia funcionando a um só ritmo, a uma só voz, a um só regime.
está neste momento prestes a ser firmado um novo Tratado de União. discute-se isto e aquilo e aqueloutro. cousas que nom chegam ao íntimo dos cidadãos deste Espaço Comum. mas a criação de um Fisco Único e de um Orçamento Único é uma daquelas obviedades que dão corpo a um Espaço Político Único e que não há meio de ser discutido e posto em prática. até lá, neste Espaço em que somos todos cidadãos da mesma Europa e recebemos e pagamos na mesma moeda, é uma anormalidade evidente que possamos ser acusados de contrabando ou de habilidade fiscal por, simplesmente, termos um carro comprado num Estado e trabalharmos e morarmos noutro Estado.
houvesse um Fisco Único em toda a União, ou pelo menos um único Sistema Fiscal, com regras e taxas comuns, e não seríamos nós portugueses, nem quem a nós se associa e nos atura, os mais sacrificados contribuintes deste lado do mundo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

a tradução


muitos médicos galegos prestam hoje serviço no sistema nacional de saúde português. a facilidade de adaptação ao país e à língua é óbvia. mas a rádios e televisões portuguesas de lisboa é que não fazem a coisa por menos: se algum médico galego é entrevistado, logo o traduzem ou lhe põem legendas por baixo. o resultado não pode ser mais idiota nem mais ridículo. traduzir o que está traduzido por natureza, legendar como quem põe legendas para surdos. será que os doentes também precisam de tradutor e de legendas para entender os médicos galegos? será que os médicos galegos precisam de tradutores e de legendas para entender os doentes portugueses?

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

os mccannismos da mente humana

não é fácil reconhecermos que o bem e mal são pólos de uma mesma dimensão, que todos nós somos heróis e vilões, santos e pecadores, juízes e criminosos, médicos e doentes. já o diz o refrão, "de médico e de louco temos todos um pouco". apenas reconhecemos como nosso o lado bom, a parte apresentável de nós mesmos. nós somos a persona (*), a máscara, a maquilhagem que pomos para que não nos vejam os pôdres, o lado mau da nossa natureza. todos queremos ficar bem no retrato. todos queremos dar a melhor imagem de nós mesmos. e no entanto, por mais que o escondamos e o reprimamos, o nosso demónio interior está lá, à espera da primeira ocasião, do primeiro descuido, para vir à superfície. entre o respeitável senhor e o criminoso medeia a ocasião. já o diz o povo: "a ocasião faz o ladrão". ou "no melhor pano cai a nódoa".
perdemos o sentido, que em tempos já foi nosso, da convivência cósmica entre o bem e o mal. perdemos a consciência de que todos nós alimentamos o bem e o mal no segredo do nosso ser. hoje, tendemos a separá-los, tendemos a ver o bem e o mal como coisas independentes e concretas. o resultado é que, como dizem Bin Laden e George W. Bush, o bem sou eu e o mal é o outro. até descobrirmos, num dia de pesadelo, que, se nós somos o bem, somos também o mal. basta surgir o momento favorável.
para passarmos de heróis a vilões, de santos a pecadores, de respeitáveis senhores a criminosos medonhos, basta um só momento de descuido, um só momento fatal, em que o vulcão reprimido entra em erupção e o diabo interior nos desfigura. uma orgia, uma droga, uma simples bebedeira, talvez tudo a um só tempo, e fazemos aquilo que não quereríamos fazer, que temos o cuidado de nunca fazer e de nem sequer admitir. talvez nem saibamos que o fizemos, tal o efeito do álcool, da droga, da orgia ou das três coisas. ou, se sabemos, nunca o poderemos aceitar, tão hediondos nos apresentamos diante de nós mesmos.
daí a negação absoluta e genuína dos nossos próprios crimes. que pode tomar a forma de uma cortina de fumo que, mais do que qualquer outro resultado, nos impeça de ver o que nós realmente somos. da construção de uma confabulação mais ou menos genial, que nos cai em cima e nos destrói para sempre, sem apelo nem agravo.
todos podemos estar nesse lugar. é uma hipocrisia não pensar assim. mas pior ainda é não assumirmos os crimes que o nosso mal pratica.
sejamos nós, com ou sem razão, os protagonistas arguidos de um caso público, ou sejamos simplesmente espectadores do circo mediático que lhe faça companhia.


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(*) persona. do latim "máscara". deu a palavra "pessoa" em português, nas línguas novilatinas e em inglês.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

o programa de tv

a aldeia foi ao programa da manhã e a pobre senhora foi incluída na embaixada. ia toda gaiteira para uma manhã de fama. deslumbra-se. a meio do programa solta-se-lhe a língua. fala de assuntos de família como se estivera na solaina entre amigas.
hoje, ninguém lhe fala.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

o parto

foi ter a criança. ao terceiro dia deram-lhe alta, com um belo cachopo no colo.
chegou a casa e encontrou o marido na cama com a amante.
dizem que o parto lhe subiu à cabeça.