quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

serotolices

cada vez é maior a pressão "científica" para que nos rendamos à tese segundo a qual as nossas alterações do humor, a nossa sensação de sofrimento interior, os nossos sentimentos de infelicidade, a nossa raiva por tudo nos correr de contrafeição, se devem não à reação natural de um ser a uma sociedade infernizante mas, sim, a fenómenos biológicos, melhor, bioquímicos. isto quer dizer que estamos deprimidos, desanimados, revoltados, não pelas razões que nos levam a deprimir, a desanimar e a revoltar-nos, mas porque o teor de certos compostos biológicos no sangue ou nas terminações nervosas está abaixo do que é normal em condições normais. assim sendo, tenha o homem ou a mulher os sentimentos que tiver e as razões que tenha para os ter, a verdade é que não é por essas razões que ele ou ela está deprimido ou deprimida, desanimado ou desanimada. é porque, por coincidência, se deu o caso de ter uma baixa de serotonina, ou outra merdice qualquer, no sangue ou nas terminações nervosas. a conclusão desta teoria é óbvia: se conseguirmos que as taxas dessas tretas no sangue ou nas terminações nervosas se mantenham em níveis ótimos, pode cair o carmo e a trindade, pode morrer o pai, a mãe ou o marido ou a mulher, ou até o próprio, podem penhorar-lhe o carro, a casa, o que tem e o que não tem, pode vir a maior crise social de todos os tempos, pode vir a carestia e a fome, que fica o indivíduo numa naice, feliz da vida, no melhor dos mundos, como um zombie pateta, ou melhor, como um pateta alegre.
o que está por detrás desta teoria são três interesses concorrentes: por um lado, uma indústria que tem de justificar por que nos vende medicamentos para podermos tolerar certas coisas, as pessoas e nós mesmos; por outro lado, um Estado que não tendo formas reais de nos fazer razoavelmente felizes, nos quer assegurar uma tolerância bioquímica à frustração e aos desequilíbrios sociais que ele não é capaz de resolver; e, finalmente, as pessoas, que precisam de ajuda e aceitam tudo o que lhes prometa bem estar, ainda que ilusório.
e viva a serotonina. e viva a serotolice.
e se a baixa da tal serotonina e companhia fosse uma consequência e não uma causa?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

casamento

nos dias de hoje a discussão mais logicamente viciada é a que corre acerca do casamento homossexual. e o sofisma reside em se reinvindicar a igualdade de direitos. ora muito bem: todos nós temos direito a receber um bom salário mensal, todos nós temos direito a uma reforma excelente, todos nós temos direito a ser primeiros-ministros e assim por diante. mas qualquer desses direitos só pode ser realizado depois de observadas as necessárias condições. assim, eu tenho direito a receber um bom salário mensal, mas tenho que satisfazer as condições que estão associadas ao facto de se ter um bom salário mensal. eu tenho direito a uma excelente reforma, mas devo preencher as condições de tempo e de contribuição necessários para poder gozar uma excelente reforma. eu tenho direito a ser primeiro-ministro, mas tenho que obedecer às condições políticas, sociais e de momento que possam fazer de mim primeiro-ministro. é claro, todos temos direito ao casamento. mas seria de supor que esse direito tamém só fosse satisfeito sob as condições necessárias para se celebrar um casamento. e o que é um casamento? ao contrário do que dizem os homossexuais, eles não estão impedidos de casar. ninguém os estorva. nom podem é casar uns com os outros, tal como nom podem casar mais que duas pessoas, nem pessoas que sejam familiares em primeiro grau.
tenho para mim que a reinvindicação do direito dos homossexuais a casarem entre si é um abuso de lógica e uma forma de diminuírem e desagregarem o mundo dos heterossexuais, já de si pouco sólido. não há nenhuma lógica que resista ao absurdo de um casamento sem outra finalidade que a de gerir afetos, coisa que, como sabemos, sai facilmente pela mesma porta por onde entrou.
as uniões sentimentais não têm que ter nenhum estatuto especial, nem têm que ser alvo de nenhuma discriminação. cada qual junta-se com quem quer e gostos não se discutem. mas daí a celebrar um ato administrativo e cívico, daí a envolver o Estado, vai uma grande distância. por mais razão que aquela que os homossexuais reclamam para poderem casar, poderiam reclamar o direito ao casamento civil as uniões poligâmicas e os casais incestuosos. quem sabe quantos heterossexuais apareceriam para celebrar esse tipo de casamentos. mas os homossexuais estão primeiro...
e não venham com a estória da homofobia, porque a verdadeira fobia está no medo do encontro com o sexo oposto.
e, já agora, muito gostava eu de saber o que dirão os homossexuais da possibilidade de legalizar o casamento poligâmico e o casamento incestuoso: que são antinaturais? que são contra a família? não me façam rir...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

corrupção e parolice

assistimos, nos últimos tempos, a uma confusão desastrada entre corrupção e atividade económica. o simples pronunciar da palavra "negócio" é produzido de uma forma subliminar de censura, como se um "negócio" fosse coisa condenável. o mesmo se passa com o acesso a "informação privilegiada", o lobbying e o "tráfico de influências". vê-se bem que ainda não saimos do estadio primário da ruralidade de subsistência, onde a corrupção, segundo esses critérios, nem sequer pode existir. um grande empresário, um grande investidor bem intencionado, afinal de contas aquele que dá esplendor e grandeza a uma economia, nom pode exercer a sua atividade sem um conjunto de pressupostos. um deles é o acesso à "informação privilegiada". seria um desastre que ele estabelecesse a sua empresa, as suas fábricas no local errado. por isso, ter acesso a tempo e horas à "informação privilegiada" que o leve a situar a sua empresa no melhor local parece-me do mais elementar bom senso. o mesmo se passa com o "lobbying" e o "tráfico de influências". ultrapassar burocracias infindas, entraves infinitos, descasos e negligências do aparelho administrativo e das vontades políticas, também me parece sensato. de outro modo, a economia não funciona. isto é assim em todo o mundo desenvolvido. mas não aqui, onde saimos há pouco tempo da idade média rural.
é claro que sou contra a corrupção. é claro que sou contra os que pagam e recebem benesses para ludibriar, enganar, prejudicar os clientes e o estado. para enriquecer mais do que permitiria o limpo e claro desenvolvimento da atividade. mas não confundo "corrupção" com "acesso a informação privilegiada", "lobbying" e "tráfico de influências". porque essa confusão nos conduz a um beco sem saída. e nos devolve, em troca, a nossa incorrigível parolice.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

a ditadura da justiça

estamos sob a ditadura da justiça, um fundamentalismo justiceiro que atropela tudo e todos. uma justiça que nem se dá ao luxo de acabar as histórias que começa. uma justiça - recorde-se - que é o único pilar do estado que não é eleito. por isso, a corrupção que vemos é geral, excepto na justiça, claro. porque, ao que parece, ninguém escuta os mais altos magistrados da justiça.
e enquanto os papalvos continuam a divertir-se com estas histórias de escandaleira, toda a cadeia da justiça se vai alimentando da mesma manjedoura. enquanto os portugueses se extasiam com este espetáculo degradante, nunca os advogados tiveram tanto que fazer, nem processos tão profissionalmente vantajosos.
a democracia portuguesa está a enveredar pelo caminho do suicídio. querer à viva força envolver o primeiro ministro em tramas sem matéria substancialmente conclusiva é o que há de mais lesivo da confiança que se requer entre os portugueses e as suas instituições. este tipo de fait divers recorrentes interessam, em primeiro lugar, aos inimigos da democracia. oxalá não tenhamos que lamentar toda esta atual sanha contra tudo o que é política e políticos. nessa altura haverá ainda mais corrupção e mais corruptos, mas não haverá notícias a dar de vender aos jornais.
quem põe travão nesta justiça sem controle? quem pode vigiar a justiça em regime democrático?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

estratégias de marketing

cuidava eu que um ateu ou um agnóstico era ateu ou agnóstico e pronto. para um, deus não existe e do que não existe não se fala. para o outro, deus é incognoscível e do que não se pode conhecer mais vale não falar. mas eu estava era enganado. vem Saramago e desata a falar de deus e das coisas que os crentes ligam à ideia de deus, com aquela convicção própria de quem acredita que vale a pena dizer mal daquilo que não existe ou daquilo que não se pode saber se existe ou não. Saramago fala como se deus existisse mas fosse algo desagradável, repulsivo, sei lá, como se deus fosse, afinal, para ele, aquilo que o diabo é para os crentes.
o tema ainda teria algum interesse se Saramago levasse a coisa para o campo intelectual, filosófico, histórico, crítico das religiões, para o estudo sociológico, psicológico, psiquiátrico, até. mas não. Saramago faz escândalo simplesmente porque o escândalo vende livros. afinal, a técnica de Salman Rushdie e do jornal dinamarquês que publicou a caricatura de Maomé. o que conseguiram todos? vender muito e depressa. mudaram alguma coisa no pensamento dos crentes? nada, coisíssima nenhuma. nem isso lhes interessa. o que é preciso é vender muito com pouco esforço. vender o escândalo. e a religião atacada ainda vende bem. a hipocrisia dessa gente é que sem a religião não podiam fazer escândalo contra ela. não poderiam vender tanto. enojam-me. porque são eles os primeiros consumidores de religião.
afinal, a prova de que deus não existe são eles mesmos: dizem o que lhes apetece e sabem que não vão sofrer nadinha com isso.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

orgulhosamente sós

dos três grandes projetos globalizantes, que faziam a imagem de marca do Governo em funções, nem um só deu ainda um passo em frente. refiro-me à nova norma ortográfica da Língua, ao novo aeroporto de Lisboa e ao TGV.
perdidos em rodriguinhos e falsa vontade de avançar, o mínimo que se exige é que os respetivos ministros desapareçam de cena e já.
estamos fartos de ser periféricos, estamos cansados de estar orgulhosamente sós. e, sobretudo, estamos fartos dessa ideologia bacoca da economia de subsistência, que só pensa no que gasta e nunca vislumbra o que vai ganhar. por isso, somos capazes de plantar couves e batatas no quintal e criar galinhas e coelhos no saguão, mas somos incapazes de pôr de pé uma empresa de nível e pensar em grande. assim, continuaremos uns pilantras de arrabalde a caminho do estatuto de sem-abrigo.
e o pior é que esse espírito tacanho e miserável parece tudo o que os partidos de oposição teem a oferecer.
e, não criamos riqueza, não sairemos da pobreza. refiro-me, sobretudo, à que mais me dói: a pobreza de espírito. porque atrás desta vem a outra.

domingo, 7 de junho de 2009

as eleições mais chôchas de que há memória

sem que nenhum dos partidos da oposição tenha feito por isso, o PS sofreu uma derrota histórica.
não sei se ganhámos grande coisa. o completo vazio de ideias entre vencedores e vencidos, não nos devolve nenhum élan, nem nos dá qualquer especial confiança no futuro.


sabido que não se discutiu nada sobre a matéria central destas eleições, quero dizer, a Europa, não sei para que servem estes resultados.

sabido que em matéria de crise mundial, europeia e nacional nenhum partido pode fazer diferença que se veja, tamém não sei para que raio servem estes resultados.

resta um prémio de consolação: a principal diferença entre quem ganhou e quem perdeu está na forma como trata os temas fraturantes. talvez a legalização da canabis, o casamento gay, o divórcio supersónico, a eutanásia e o aborto à la carte passem a ser tratados de outra forma. menos prafrentex. e com maior consideração pelas maiorias. afinal, é isso que a democracia é.
dar voz às minorias e dignidade às suas opiniões, opções e folclore é completamente diferente de ser governado por elas.