sábado, 17 de março de 2012

a propósito de templo

a palavra templo implica o conceito de sagrado, podendo tratar-se de um espaço exterior organizado e simbólico mas também do espaço íntimo, interior. a sua história é tão antiga como a humanidade.
no mundo romano, para fazer a leitura dos sinais celestes, o áugure delimitava com o seu bastão um setor do céu. e nesse setor celeste, que representava e continha toda a cosmogonia, observava os fenómenos naturais, nomeadamente a passagem das aves. a esse setor do céu chamava templum
mais tarde, o templum passou a designar o lugar ou edifício sagrado onde se praticava essa observação e interpretação do céu. 
o radical indoeuropeu "tem-", de onde deriva o termo latino templum e as palavras gregas tomos (por exº, em: tomo-grafia) e temenos, contém a ideia de “cortar”, “separar”, “delimitar”, “dividir”. desde a mais remota antiguidade, pode ser um lugar ao ar livre, em bosques, em cavernas ou no alto de montes. a palavra correspondente a templum em Grego, temenos, designava o lugar reservado aos deuses, a cerca sagrada que envolvia um santuário, constituindo um lugar intocável. o templo é a habitação do divino, o lugar da Presença por excelência. 
por isso, todo o templo está em linha com o mundo celeste e representa o “centro” do mundo. o espaço nasce nele e resume-se nele. é por isso que a orientação constitui um dos elementos principais da construção do templo. ele é o resumo do macrocosmos e a imagem do microcosmos. consequentemente, é ao mesmo tempo uma imagem simbólica do cosmos, do mundo e do homem. o templo não é apenas o edifício sagrado. 
ele é símbolo de “santuário” em múltiplos sentidos, incluindo o homem que se esforça para alcançar um nível espiritual no mundo quotidiano. a sua arquitetura é uma imagem da representação que o homem faz do divino, sendo pois uma réplica terrestre dos arquétipos e da cosmogonia celestes. 
nele, construção e construtor são colocados ao mesmo nível e partilham o mesmo destino. a humanidade que se dedica a construir o templo torna-se idêntica a ele. 
no mundo latino tendia-se a confundir o que é divino, isto é, o que tem propriedades divinas, com aquilo a que chamamos substantivamente “deus”; mas para os gregos o “théos”, que traduzimos por “deus”, não é sinónimo de um “deus” substantivo, é uma propriedade das coisas ou dos lugares. diz-se que algo é “théos” porque tem propriedades divinas, faz parte do “pleroma” - a totalidade dos poderes divinos -, e não propriamente porque seja um “deus”, quer no sentido animista, quer no sentido politeista, quer no sentido monoteísta.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pinóquio, um boneco cheio de surpresas

todos ouvimos falar de Pinóquio, o boneco a quem o nariz crescia à medida das suas mentiras. um nariz que, estando muito na moda, alguns autores da escola psicanalítica tendem a confundir, de forma simplista, com uma mera manifestação fálica. por outro lado, o seu amigo Grilo Falante tem sido também objeto de interpretações simplistas, tornando-se, em certos meios, um protótipo do moralista hipócrita. mas, tanto o nariz de Pinóquio como o Grilo Falante, ainda que carregados de significado, são apenas uma parte menor das particularidades da estória do boneco de Geppetto.
começa tudo pelo nome: Pinóquio. este nome, no italiano toscano de Collodi – o autor da estória – significa “pinhão”, mas pode ser também uma palavra composta, onde entra “pin-“ e “occhio”, sendo que “pin-“ se pode referir a “pinheiro”, “pino” e pineal”, e “occhio” a “olho”. além disso, o narrador da estória explica-nos que o nome lhe foi sugerido por uma conhecida e vasta família de “Pinóquios”, da qual “o mais rico de todos pedia esmola”. isto lembra uma comunidade de tipo monástico ou outra, em que um dos frades é encarregado de recolher os donativos.
isto é, o nome “Pinóquio” não é fruto do acaso ou da arbitrariedade literária. assim como não é casual nem arbitrário o nome Mestre Cereja, que em italiano, “ciliegia”, pode ser um trocadilho com “cílios egípcios” – as pestanas egípcias, o olho de Hórus.
Collodi, pseudónimo literário do verdadeiro autor, Carlo Lorenzini, é ele mesmo significante: os “colódios” (collodi) são soluções viscosas de piroxilina numa mistura de álcool e éter, às vezes nalgum outro solvente, usadas principalmente em terapêutica ou em fotografia pré-digital. é neste último sentido que entendo o significado do pseudónimo, tanto mais que era esse o processo de obter fotografias já no tempo de Collodi. quer dizer, Collodi é, pois, alguém que mostra ou revela simultaneamente dois aspetos da mesma realidade, pois que uma caraterística importante dos colódios é a sua dualidade, o facto de simultaneamente serem positivos (quando sobre um fundo escuro) ou negativos (quando vistos à transparência). tudo isto apesar de o autor ter atribuído a inspiração para o pseudónimo ao nome da terra natal de sua mãe.
mas vamos à estória. tudo começa com uma canhota de “madeira”, um pedaço informe de uma substância primordial que em Latim se diz “materia” e que em Português deu as palavras “matéria” e “madeira”. ora, os mestres que trabalham a madeira (materia) chamam-se “carpinteiros” – como o São José da biografia corrente de Jesus menino, esse São José que emigra com toda a família para o Egito, até que o filho faça 12 anos e se torne capaz, quando regressa à pátria, de discutir em pé de igualdade com os doutores.
o primeiro dono daquele pedaço de matéria bruta (madeira), o Mestre Cereja ou Olho de Hórus, como vimos, era um carpinteiro, sim senhor, mas tinha o estranho passatempo de “ensinar a tabuada às formigas”. Que é como quem diz, iniciava os noviços da sua Ordem (as “formigas”) nas ciências da Matemática. posso imaginá-lo na posição egípcia, sentado, com os braços colados ao tronco, as mãos poisadas sobre os joelhos. podemos até imaginá-lo a brincar com os teoremas e paradoxos da aritmética e da geometria da ciência egípcia, transmitida aos gregos da Idade Clássica.

Mestre Cereja, oferece a canhota de madeira a Geppetto, pai e criador de Pinóquio. e mais uma vez, o nome escolhido está longe de ser arbitrário. Geppetto é um diminutivo de Giuseppe, José (o carpinteiro de Nazaré, o que emigrou para o Egito – a pátria da Sabedoria superior). e as suas consoantes GPT apontam uma vez mais para o país do Nilo.
voltemos à estória: seria aquela canhota de madeira um simples pedaço de matéria bruta, fria, inanimada? logo se vê que não: a canhota surpreende-nos porque geme, queixa-se, aplaude e até provoca uma luta de mestres. moral da estória, é uma matéria bruta animada, capaz de potencialidades, de se transformar e evoluir. Pinóquio é um poço de boas intenções, animado de boa índole, mas é também irrequieto, traquina, mentiroso, estouvado, volúvel, influenciável e impulsivo. o nariz erétil, mais que um símbolo fálico ou um atributo dos mentirosos, é um sinal de alarme, que a cada momento lhe mostra a diferença entre as boas intenções e as forças ainda não domesticadas da sua natureza em bruto que o impedem de as por em prática. tão depressa ouve o Grilo Falante da Consciência, como logo se esquece dos seus conselhos. precisa de evoluir, crescer por dentro, pacificar-se, aperfeiçoar-se, domesticar-se, até ser um “menino a sério”. mas para isso vai necessitar da proteção ou assistência da boa fada madrinha, que só no fim da caminhada o pode dotar da verdadeira vida.
Pinóquio tem de fazer a travessia da vida. vai para a escola, em busca do Conhecimento. mas depressa as tentações da vida se atravessam no seu caminho. interrompido pela raposa e pelo gato, é atraido pelo o fascínio dos bens materiais e da fama fácil. deixa-se enganar no conto do vigário, julgando poder semear a árvore das patacas. vende os livros que seu pai criador lhe havia comprado com a venda do próprio casaco. e com o dinheiro da venda dos livros compra um bilhete para assistir a um teatro de fantoches, acabando por fazer parte integrante do espetáculo. uma vez mais, o fascínio da fama e do brilho enganador dos palcos deste mundo.
noutro momento da sua caminhada, Pinóquio é atraído para a ilha da felicidade, um lugar sem escola e sem leis, ou seja, sem conhecimento e sem moral, onde as crianças podem fazer tudo o que lhes der prazer - uma metáfora da vida moderna, onde reina a gratificação imediata, a satisfação dos impulsos, o hedonismo e o desprezo pelo conhecimento verdadeiro. os rapazes dessa ilha, e com eles Pinóquio, acabam transformados em burros, isto é, em alguém que não consegue sair das teias do reino da matéria.
Pinóquio volta para casa mas a casa está vazia. descobre que Geppetto foi engolido por uma baleia. em busca do pai, é ele também engolido pela baleia, nas entranhas onde mergulha na escuridão da gruta iniciática, e, encontrando o seu Criador, se prepara para receber, finalmente, a verdadeira luz da vida.

constitucional ou quê?

depois daquela espécie de "argumentos" chocarreiros, de quem não sabe do que está a falar; depois das repetições ad nauseam dos argumentos do decrépito conservador do Museu da Ortografia; depois das manifestações do mais puro chauvinismo, xenofobia e antibrasileirismo vergonhoso; depois das "opiniões" de certos [poucos] professores de Português, que, pagos para ensinar a norma e não para a discutir, a contestam para não terem o trabalho de a aprender; depois da autorizada lição de moral do Jornal de Angola sobre o "negócio" em que consiste ter uma norma única para toda a lusofonia; depois da autorizada opinião de certos entendidos, como engenheiros [poucos], médicos [poucos], construtores, vendedores, delegados, cartomantes e, até trolhas e pedreiros:

depois de tudo isso falhar,

vem agora um entendido em leis argumentar juridicamente a coisa linguístico-literária e contestar a constitucionalidade daquilo que melhores e mais sensatos constitucionalistas (suponho eu, pois que os conheço melhor e de há mais longa data) até agora não contestaram.

vou marcar imediatamente consulta para tão grande sumidade, já que me preocupa a constitucionalidade de uma lista de coisas não menos importantes e sérias, e penso que ele será o homem indicado para me valer:
- senhor doutor, a fome, o desemprego, o esbulhamento dos salários e das pensões, a retirada do subsídio de férias e de Natal, a subida desbragada dos impostos e das portagens, o desemprego galopante, todas as outras malfeitorias várias de que temos sido alvo, a pobreza nas ruas e vielas, a injustiça, a falta de acesso à saúde e à habitação e a falta de respeito pelos direitos humanos, tudo isso, é constitucional, ou quê?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

cultos antigos em formas modernas.

gosto de estudar as relações entre os cultos passados e os cultos aparentemente modernos. delicio-me quando vejo que o culto da Senhora do Leite, na sé de Braga, é a continuidade do culto importado da deusa Ísis, adaptado ao culto local anterior da deusa mãe nutridora; ou o mosteiro da Batalha, também chamado mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, implantado em local sagrado anterior dedicado à deusa Victoria. ou a todos os lugares onde há igrejas de São Pedro, implantadas sobre pedras sagradas.
delicio-me com curiosas redundâncias com que o tempo parece querer esconder as origens do culto, como é o caso do santuário de Nossa Senhora de Covadonga, nas Astúrias, cujo significado é "Nossa Senhora da Gruta da Senhora".
vejo as "sepulturas antropomórficas" em lugares onde construíram igrejas. não é preciso ir muito longe, basta ir a Penela, à sé de Viseu ou a "São Pedro" de Lourosa. as ditas "sepulturas" são adequadas ao tamanho de crianças, talvez entre os 8 e os 12 anos, no máximo, e absolutamente inadequadas a conter cadáveres cobertos seja do que for. se lhe deitássemos terra por cima ficariam com o nariz e outras coisas de fora. não é preciso muita imaginação nem muita inteligência para compreender que eram lugares de "morte temporária", simbólica, ou seja, lugares onde se "morria" para uma condição, "renascendo" para outra. quero dizer, ou lugares de iniciação ou lugares de cerimónias de passagem. daí a necessidade da sua cristianização, de uma forma que os "resilientes" labregos pudessem compreender e aceitar.
aqui há tempos, fui visitar pela enésima vez a capela meio perdida da Senhora da Estrela, na serra de Sicó, santuário que continua o culto ancestral daquela gruta sagrada. e para lá da igreja - que parece ter sido construída para funcionar como uma rolha que impede o acesso à gruta sagrada -, vejo no saguão da gruta, em forma de vulva, uns simpáticos pares de jovens em volta de uma fogueira, tal e qual como soe dizer-se a respeito dos "homens das cavernas". e dou comigo a pensar: "homens das cavernas"? ou seriam simplesmente "homens que frequentavam santuários rupestres", como nós frequentamos as igrejas?

sobre o culto da Senhora da Estrela, para o qual me chamou a atenção um doente meu, que tinha por alcunha o Siroilas, consta entre o povo uma estranha lenda: diz-se que antigamente, estes lugares ficavam junto ao mar. e certo dia um pescador saiu para a faina. veio um temporal e o barco andou à deriva vários dias. então, o pescador fez a promessa de que se chegasse a terra são e salvo, construiria, no local onde aportasse, uma capela em honra de Nossa Senhora. apareceu no céu uma estrela e o pescador salvou-se por milagre. do cumprimento da promessa surgiu a capela.
o que é estranho nesta lenda é que há milhões de anos esta região calcária teve efetivamente relação com o mar, que hoje está a mais de trinta quilómetros de distância. mistérios daquilo a que chamamos a memória das gentes...
perto daqui, no alto de outro monte da mesma serra, existe um culto não menos estranho e não menos relacionado com o mar: o culto da Senhora do Círculo, que atrai pescadores da zona de Quiaios...
a Senhora do Círculo. é um lugar de culto ímpar, localizado num dos montes da serra de Sicó, no concelho de Condeixa a Nova, perto da estrada nacional nº 1. é formado por um muro de pedra em círculo, com os seus 30 metros de diâmetro (perdoem-me a imprecisão), demarcando um recinto que tem no centro uma espécie de púlpito, de pedra, perto do qual existe uma capela metade abaixo do solo, que parece recordar os velhos dólmens.
tal como o culto da Senhora da Estrela, devo a minha curiosidade por este lugar ao velho Siroilas.
o lugar sagrado está relacionado com uma devoção própria dos pescadores da região da Figueira da Foz. na verdade, avista-se dali o mar da Figueira, pelo que o lugar pode ter sido também uma referência, um farol, que orientava os navegantes durante a noite.

PS: no lugar de Furadouro consta uma estória, que ouvi de viva voz de gente de lá, segundo a qual os antepassados teriam vindo lá de cima, do alto da Senhora do Círculo, na sequência de uma ordem de expulsão. isto aponta para uma reminiscência castreja e para a política romana de fazer descer as populações do alto dos montes para lugares mais controláveis política e administrativamente. o problema é que me fartei de procurar vestígios desse castro e não os encontrei. a menos que sejam precisamente o círculo e o local sagrado atuais.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

IVG - uso e abuso

em Portugal realizaram-se nos últimos 5 anos, 80 000 abortos legais, "por opção da mulher", 13 000 (1/6) dos quais reincidentes. passámos do problema dos abortos clandestinos ao aborto como método contracetivo. e tudo isto de graça e sem qualquer taxa moderadora. quer dizer, totalmente à custa dos mesmos tolos de sempre: os contribuintes.
viva, que luxo! ele sempre é verdade que somos um país em crise?

acresce que, enquanto isso, há crianças desvalidas que passam todo o género de necessidades e misérias. não ficaria nada mal que cada mulher que aborta legalmente (coisa que não contesto) pagasse ao menos uma taxa moderadora que pudesse ser aplicada no desenvolvimento e educação das crianças desvalidas.


PS: aproveito para sugerir que a taxa moderadora seja cumulativa, isto é, suba em igual valor ao inicial, de aborto para aborto para a mesma mulher (exº 50 - 100 - 150 euros, etc.). é uma forma de contribuir para o fim do aborto como método contracetivo.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MGF

vamos lá falar de coisas sérias. hoje é o Dia Internacional da Tolerância Zero para a Mutilação Genital Feminina (MGF). não posso estar mais de acordo com o dia e com a repressão total dessa prática. o que eu acho um bocado disparatada é a importância que se dá e o alarido que se está a fazer em Portugal sobre o tema. Portugal é um país de MGF? Portugal fica aonde, afinal? alguém quer ganhar notoriedade pública e fazer carreira no ministério da Saúde ou na política com um temeco sem interesse prático nenhum e que, ainda por cima, da maneira que é posto, nos coloca mal em termos de imagem internacional. essa questão, estatisticamente minorca e confinada a um certo núcleo de imigrantes, já tem melhor ministério para tratar dela: o ministério da Justiça.
outros países europeus terão mais razões para se preocupar com isso do que nós.
diz quem diz, ou seja, a "responsável pelo departamento de saúde reprodutiva da Direção-Geral da Saúde" : "em Portugal ainda não há números, mas o facto de não existirem dados estatísticos “não significa que [a MGF] não seja uma realidade”. ora aí está: isto não são factos, não são números, não é nada. é o mesmo que dizer que "em Portugal ainda não há dados sobre o número de imbecis, mas o facto de não haver números não significa que a imbecilidade não exista".
isto é um abuso da nossa credulidade, um alarmismo patético. apontem números e digam aonde é que em Portugal há MGF. e entreguem os casos à Justiça, ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, sei lá, mas não à Saúde. se fazem favor.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

a velhice que estamos a criar

aqui há dias, estava eu muito descansado, a fumar o meu cigarro, de castigo à porta do café, quando chega um velhote com fome de conversa e me lança este provérbio: "janeiro geoso, fevereiro ventoso, março frio e abril chuvoso fazem o ano formoso". ouvi-o atentamente, porque nunca se perde nada em falar com alguém mais velho do que nós. e patati e patatá e foi um prazer falar consigo. fico contente que tenha sido para ele um prazer falar comigo. mas pesa-me essa necessidade compulsiva de meter conversa com alguém que não se conhece de lado nenhum. a solidão dos velhos começa a ser um escândalo nacional. se calhar não adianta botar as culpas a ninguém. é, simplesmente, um sinal dos tempos. e tenho para mim que pior que estes velhos solitários ainda estão aqueles que vivem reclusos em cadeias a que chamam "lares de idosos". obrigados a pedir licença para tudo. presos pelo crime de serem velhos. obrigados até, por recente opção do nosso governo, a partilhar as suas celas, perdão, quartos, com mais um um ou dois presos, além dos companheiros de quarto habituais até aqui.
em 2012, até ao momento, em Lisboa, já foram encontrados mortos em suas casas cerca de duas dezenas idosos. e em 2011 os bombeiros da capital encontraram cerca de 80 idosos mortos em casa. é caso para dizer que todos estes idosos são encontrados mortos porque ninguém se interessou antes por encontrá-los vivos.
os velhos desataram a morrer sozinhos. todos os dias se descobre mais um, mais dois...não sei se morrem numa solidão escolhida se morrem numa solidão imposta. para uns será assim, para outros não. seja como for, está em causa uma profunda patologia da afetividade, dos laços de parentesco e dos laços de pertença: eles, esses velhos, ou perderam laços que não souberam preservar, ou foram-lhe cortados os laços que gostariam de manter.
é a sociedade que estamos a criar, a velhice que estamos a construir. já não sei para que serve o aumento da esperança de vida, que nos conduz a uma velhice destas. vivemos para o presente, até que damos conta que o futuro, a consequência de todos os presentes, já chegou.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Breivik e a inimputabilidade

os meus colegas chamados a perícia psiquiátrica no caso Anders Behring Breivik, autor confesso da chacina de Utoeia, terão concluído que o examinado sofre de "esquizofrenia paranóide" e deve ser considerado inimputável, isto é, não deve ser sujeito a sanção criminal, antes deve ser submetido a tratamento e medidas de segurança de natureza psiquiátrica. e terão concluído bem, em minha opinião, não necessariamente apenas por critérios médicos e, especificamente, psiquiátricos.
assim, para que alguém seja considerado inimputável é necessário que ou esteja impedido de fazer a distinção entre o que é lícito e o que é ilícito, ou que, podendo fazê-la, esteja de tal modo privado de autodeterminação que não possa agir em conformidade com essa distinção fundamental. por exemplo, um delirante de ciúmes pode ter acumulado todo um rol de pseudoevidências a respeito da alegada "infidelidade" da sua esposa, mas sabe que lhe é interdito matá-la e que, com toda a certeza, se o fizer, irá ser preso, levado a tribunal e condenado por homicídio. porém, em muitos casos, o delirante ciumento uxoricida acaba decidindo: "dou cabo da minha vida, mas ao menos resolvo o problema de raiz". e este não é, certamente, um caso de inimputabilidade.
já no psicótico que tenha um delírio e sensações de influência, que ouve vozes com força de ordens a que seja impossível resistir, é mais claro que aquilo que faça sob a ação dessas ordens seja responsabilidade dessas ordens e não dele. será então um caso de inimputabilidade, que a recear-se o perigo de reincidência, exige medidas de segurança e tratamento como forma de proteger a sociedade e de o proteger a ele próprio.
porém, não basta ser psicótico, nem "esquizofrénico paranóide" para se reconhecer, sem mais, o estatuto de inimputável. é preciso que essa "psicose", que essa "esquizofrenia paranóide", retire ao seu portador a liberdade de dizer sim ou não às entidades que atormentam ou dão forma à sua imaginação.

mas Breivik levanta questões muito mais complexas e sérias. diz-se que o homem é de extrema direita, um neonazi, alegadamente membro de organizações, umas de natureza política, outras de natureza social. sabe-se que desenvolveu uma elaborada teoria sobre o mundo moderno, a que, consequentemente, seria necessário dar uma resposta violenta. e, ao que se julga saber, se é certo que é membro de organizações extremistas, não estará sozinho nessa forma de diagnóstico e tratamento dos males da sociedade moderna.
levar a sério a sua elaboração lógica, seja ela solitária ou compartilhada, seria reconhecer-lhe caráter político, o que daria ao julgamento um perigoso tom de julgamento político. e reconheceria ao réu o estatuto de preso político. ainda que autor confesso de crimes que facilmente cabem no conceito de crimes contra a Humanidade, seria um preso político. quer dizer, um criminoso da pior espécie para uns, um herói para outros.
ir por aqui seria cair numa terrível armadilha.
não sei se os meus colegas pensaram também nisso, ou se agiram apenas e só baseados na constatação da psicose "esquizofrenia paranóide"; e se além das ideias (delirantes, suponho) encontraram também aquela falta de liberdade essencial à imputação de crime que consiste em estar sob a influência de uma força imperativa exterior ao "eu". acredito que sim.
mas, seja como for, ao ser considerado inimputável (presumo que perigoso), ainda que fique um desagradável travo de injustiça para quem esteja mais interessado no espetáculo da punição do que nas suas consequências, o réu Breivik sofre uma desacreditação perpétua das suas teorias e será submetido a um controle vitalício das suas atividades.
e isto é seguramente melhor que ser preso e condenado pela prática de um crime hediondo sob a alçada de uma mente livre e esclarecida, e portanto imputável. e o raciocínio vale por igual para uma eventual pena de morte. é que às vezes os mortos continuam a falar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

estamos cada vez mais inteligentes?

um estudo canadiano recente afirma que o ser humano está cada vez mais inteligente. tenho as minhas dúvidas. sobretudo acho essa afirmação muito arriscada. se excluirmos o recurso ao espiritismo, não vejo como se compara o QI do meu tataravô com o do meu trisavô, do meu bisavô, do meu avô, do meu pai e o meu. o único que está disponível é o meu. por outro lado, de todos os grandes génios da Humanidade não conheço um único que tivesse um filho e um neto mais genial que ele. outros nem filhos tiveram. os testes de QI medem o quê: a inteligência ou a conformidade com o padrão tecnológico e de informação disponível no momento? a inferência de que as gerações respondem cada vez melhor a testes de QI cada vez mais recentes, logo são mais inteligentes, é tão válida como a inferência de que as gerações responderiam cada vez pior a testes de inteligência cada vez mais antigos, logo são mais estúpidas. possivelmente, um arquiteto das pirâmides ficaria largamente confuso na presença de um veículo espacial. mas o homem moderno também fica abismado ante a construção das pirâmides egípcias.

é verdade, estamos a ficar cada vez mais inteligentes. e eu estou a ficar tão inteligente que já nem me consigo compreender.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

somos todos contra os ricos

imaginemos um país de 10 milhões de habitantes em que 5 milhões são muito pobres. um rico dos ricos resolve doar 1 milhão de euros, a dividir por todos os pobres do país. cada um dos pobrezinhos receberia, portanto, 20 cêntimos. imaginamos que havia 10 ricos dos ricos, e não apenas um. e imaginemos que tinham, cada um, 1 milhão para distribuir pelos 5 milhões de pobres. cada pobre receberia, portanto, 2 euros. imaginemos que não eram 10, mas 1000. receberia cada pobre 200 euros. mas se fossem 10 000 ricos dos ricos, cada pobre receberia, com o mesmo contributo individual de cada rico dos ricos, 2000 euros.
agora imaginemos tudo ao contrário: que o país tinha 10 mil ricos dos ricos, mas passou a ter apenas 1000 e depois apenas 100 e depois apenas 10 e, finalmente, apenas 1. até serem todos pobres muito pobres. orgulhosamente iguais.

domingo, 15 de maio de 2011

liberdade sexual?

eu estava convencido de que vivíamos numa sociedade sexualmente adulta, livre e despreconceituada. eu estava convencido até de que o moralismo era uma coisa do tempo das religiões monoteístas. até me convencia de que a Inquisição e a Polícia de Costumes tinham sido extintas. nada disso: acusa-se um homem de violação e pronto. queima-se. vai pró inferno. o resultado do processo é irrelevante. a coisa faz efeito por si mesma, a partir do momento em que é dita. hipócritas.

quinta-feira, 24 de março de 2011

algumas reflexões sobre o simbolismo das pontes

a ponte é um dos símbolos mais difundidos no mundo. ela é a passagem da terra ao céu, do estado humano aos supra-humanos, da contingência à imortalidade, do mundo sensível ao supra-sensível. é um símbolo de passagem, uma passagem perigosa como toda a viagem iniciática. a ponte representa o que é representável também pela barca do inferno. assim, em algumas tradições fala-se da travessia da ponte que leva ao paraíso passando por cima do inferno. é uma ponte “mais fina que um cabelo e mais cortante que um sabre”, a ponte da espada, das tradições celtas. só os eleitos a atravessarão, com mais ou menos dificuldade, de acordo com a qualidade das ações que praticaram e a força da sua fé. alguns farão a travessia em cem anos, outros em mil, consoante a pureza das suas vidas. mas os que não tem merecimento serão precipitados no abismo.

segundo a mitologia celta, um rei deitou-se atravessado no rio, de uma margem à outra, para que o exército pudesse passar por cima do seu corpo. porque, diz o aforismo, “aquele que é chefe que seja ponte”. este mito foi conservado aqui, na velha Galécia, na lenda da travessia do rio Lima pelo conquistador romano, o general Décimo Júnio Bruto, “O Galaico”. o nome do rio, “límia” na fala autóctone, era para os romanos percebido como o “limite”, algo que não podia ser transposto sem graves perigos. tal como na lenda grega do rio Letes, quem o atravessasse perderia a memória. perante a recusa dos soldados em transpor o rio, receosos de perderem a memória da sua vida, do seu passado e a sua identidade, Décimo Júnio Bruto passa para o lado de lá e chama pelo nome os seus soldados, um por um – provando, assim, que não só não tinha perdido a memória nem a identidade pessoal como subia de grau na afirmação da sua liderança.

todas as tradições, ocidentais e orientais, confirmam o simbolismo da ponte como lugar de passagem e de prova. um lugar mais propriamente de entrada do que de saída, já que a própria ponte é um universo simbólico em si mesmo, do qual se sai depois de superadas as provas que implica. aquele que entra não é o mesmo que sai, porque sai mudado, novo. por isso mesmo se diz “Ponte das Três Entradas” e não “ponte das três saídas”. a ponte representa a transição de um estado interior para outro, a saída entre dois desejos em conflito. é um passo decisivo. evitar a passagem não resolve nada, há que atravessá-la, com a liberdade de pensar que toda a superação implica. sem essa liberdade de pensar é impossível transpor a ponte que conduz da escravidão à liberdade, desta Babilónia terrestre onde somos estrangeiros à Jerusalém celeste de que aspiramos a ser cidadãos perfeitos.

na ponte há duas dimensões: a horizontal e a vertical. funciona como um “eixo do mundo”. a ponte de Chaves é um bom exemplo desse eixo do mundo: tem uma coluna onde consta o nome de todas as tribos galaicas por ela servidas e que para ela contribuíram com o trabalho dos seus filhos. ou seja, o mundo de que ela é o centro. esta dimensão vertical é reconhecida por todas as tradições antigas. a ponte une não só as duas margens do rio ou do abismo, mas também o céu e a terra. por isso, muitas pontes medievais, sobretudo românicas, tem um perfil em lombo de asno, de duplo pendente, formando um ângulo no seu arco médio. este desenho é propositado, pois que essa estrutura não só não é necessária, tendo em conta o caudal do rio que cruza, como ainda acrescenta problemas arquitetónicos “desnecessários” e complexos. a sua justificação não é, pois, de natureza prática, mas sim espiritual. se repararmos, também as pontes modernas investem muito na dimensão vertical, a dizer que, apesar de tudo, os mestres construtores continuam vivos.

em França, na Espanha e em Portugal são conhecidas as “pontes do diabo” e as suas lendas. são pontes construídas em lugares de extrema dificuldade, por cima de abismos aparentemente inacessíveis e intransponíveis, como a nossa ponte da Misarela. essas lendas põem em confronto os poderes de deus e do diabo e os seus respetivos seguidores. o diabo, o demiurgo, aquele que faz a partir da matéria pré-existente, o único capaz de erguer semelhantes estruturas no entendimento popular, exige o seu quinhão: o sacrifício do primeiro que a atravessar. estas lendas tentam explicar não só a própria construção dessas pontes materiais aparentemente impossíveis, como do ponto de vista simbólico indicam a angústia que suscita a passagem difícil sobre um lugar perigoso. a ponte coloca o homem numa via estreita, perante a qual ele se defronta com a obrigação de escolher. escolha que o pode perder mas também salvar. escolha que implica liberdade de pensar, disponibilidade para correr riscos.

do ponto de vista da psicologia, o simbolismo da ponte traduz a ligação do consciente ao inconsciente, as provas que cada um de nós tem que superar no processo de individuação e de autodesenvolvimento. a ponte não é um mero lugar de travessia, pois deve ser abordada através de ritos de passagem bem determinados. por isso, muitas pontes medievais são precedidas de capelas ou nichos, de alminhas, de uma torre, de uma porta ou de advertências que remetem a passagem física para o mundo do sagrado. muitas, ainda, sem que nada de prático o justifique, estão construídas em escada, tornando a passagem deliberadamente mais difícil e lenta, convidando à reflexão.

os imperadores romanos tinham o título de Sumo Pontífice, título que, a partir do século IV, passou a ser o dos papas. “Sumo Pontífice”, isto é, “o mais alto dos construtores de pontes”, aquele que liga este mundo e os outros, aquele que tem, pois, a mais alta função religiosa (de “re-ligar”).

hoje em dia, o aspeto utilitário da ponte dificulta o reconhecimento do seu caráter simbólico e sagrado. além disso, ela é um símbolo de construtores e, por isso, a sua elaboração mental e filosófica é de caráter esotérico, estando vedada aos que não tem qualificação para isso. as próprias pontes modernas, apesar do materialismo reinante, tenhem uma forte componente artística que vai para muito para além da sua estrita função utilitária.

quando só o aspeto utilitário permanece e se perde o seu simbolismo, a ponte torna-se um mero objeto, sem outro sentido nem função que a da própria estrada de que faz parte. deixa de merecer atenção, meditação e reverência. é simplesmente usada. mas ela conserva o seu duplo aspeto: benéfico e maléfico. por má construção ou por desleixo, pode cair fragorosamente, levando consigo as suas vítimas, os seus sacrificados.

pois bem: há as pontes-símbolo, que em si contêm verdades e saberes. há as pontes que por falta de simbolismo são símbolo de um mundo sem símbolos - um mundo onde sobejam as pontes aquáticas, terrestres e aéreas. mas há também as outras pontes. vivemos até num mundo onde essas pontes faltam: as pontes da fraternidade e do amor. as pontes que é urgente construir entre nós e nós, e entre nós e os outros. sob pena de vivermos entre abismos.



figura: ponte da Misarela.
in: www.serra-do-geres.com




quarta-feira, 21 de abril de 2010

as estranhas acusações à Igreja

nos últimos tempos multiplicam-se as acusações à Igreja e aos padres católicos. a onda, devidamente concertada, tem deixado a Igreja Católica ocupada e sem fôlego para se defender de tamanho caudal de evidências e acusações. por artes mágicas, os coelhos saíram todos ao mesmo tempo da cartola: de repente, como se se tratasse de uma doença que os atacou a todos, ser padre e "pedófilo" tornou-se quase sinónimo. ora isto, para mim que nem católico me posso chamar, faz-me confusão. em primeiro lugar, faz-me confusão que os padres não sejam acusados do "pecado" sexual que mais os carateriza: terem a sua amante e, quiçá, o seu "sobrinho" ou "afilhada", isto é, filhos. não, do que eles agora são acusados é de "pedofilia", pecado hediondo, inimaginável, sobretudo porque ninguém sabe muito bem o que isso é: vão para a cama com criancinhas, violam menores? não: têm atividades sexuais com jovens adolescentes ou até mais crescidinhos que isso. se é com rapazes, isso é homossexualidade, se com raparigas, bom, é ter relações sexuais com elas antes que elas completem a idade legal para terem relações sexuais sem tramar o parceiro.
mas a coisa tem implicações mais fundas. a coisa destroi a autoridade de uma das mais fortes defesas da sociedade pré-gay: a instituição católica. eles, os padres, são "pedófilos", pecadores sujos, nojentos, a fina flor do exército satânico. a partir de agora, que autoridade tem a Igreja Católica para se opor aos homossexuais, ao casamento deles, à adoção? enfim, a partir de agora, ser gay é melhor que ser padre, que ser pedófilo, que ser um nojo.
faz-me impressão que não acusem os padres do seu "pecado sexual" mais frequente: terem a sua amante, o seu "sobrinho", a sua "afilhada". muitos de nós até temos um padre progenitor na nossa árvore genealógica, mais ou menos para trás no tempo.
poderia dizer-se que esta campanha visa o direito dos padres ao casamento. mentira: esta campanha visa, simplesmente, acabar com a autoridade moral dos padres e da Igreja. porque, na vida real, os verdadeiros "pedófilos" são casados. também não se pretende apontar a homossexualidade de alguns padres, já que a acusação, claro,  não é essa. é "pedofilia": a palavra mágica para acabar de vez com a autoridade moral do último reduto da moral com que tivemos até aqui: a Igreja Católica.
tempos difíceis nos esperam...

PS: evidentemente, não tenho nada contra os homossexuais. a vida deles é deles, de mais ninguém. não sofro dessa coisa a que certos círculos chamam "homofobia". mas ser homossexual e livre é uma coisa, ser gay militante é outra. a mesma coisa que ser mulher e livre ou ser feminista. ser homem e livre ou ser machista.

sábado, 10 de abril de 2010

maus tempos para a Igreja Católica

não tenho a intenção absurda de ofender os católicos, entre os quais contei os meus próprios pais. quero apenas desabafar aqui a minha enorme deceção e ceticismo sobre o poder da Igreja Católica de nos elevar, hoje em dia, até às alturas da experiência mística ou, sequer, de nos alimentar qualquer réstia de sentimento religioso. a eleição de Bento XVI foi manifestamente um erro. e das duas uma: ou ela foi inspirada pelo Espírito Santo e temos então de reconhecer que o Espírito Santo errou, como qualquer outro espírito, ou a eleição foi obra de umas dezenas de cardeais e estes erraram. não se trata da pessoa de Joseph Ratzinger, uma personalidade intelectual acima de qualquer dúvida, um percurso de vida acima de qualquer paralelo. o problema é que a pessoa de Ratzinger tem sido alvo de enorme violência e má fé, por aquele tipo de escrutínio muito em voga, que se atém à letra das palavras sem olhar ao seu contexto. a primeira vulnerabilidade é Ratzinger ser alemão e velho, logo vulnerável à estúpida acusação de nazismo, como se os idiotas que o acusam tivessem, em igualdade de circunstâncias, professado um antinazismo congénito; a segunda é conotá-lo com a Santa Inquisição do Renascimento, como se a Congregação para a Doutrina da Fé, pelo facto de suceder à dita Santa Inquisição, fosse a mesma coisa que ela; a terceira, coisa também muito em voga, é arvorar um justicialismo absurdo e arrogante sobre a questão sexual dos padres, como se, em igualdade de circunstâncias, os justiceiros de agora tivessem tido outra atitude que não fosse a de uma sábia prudência e recato. isto sem falar do molho de bróculos e de mal entendidos que constitui aquilo a que se chama vulgarmente "pedofilia".
o Espírito Santo era obrigado a adivinhar estas coisas. e os cardeais, na falta Dele, eram obrigados a ter previsto este triste sinal dos tempos.
os críticos do Papa não falam assim para tornar o mundo mais justo nem mais moral, pelo contrário: criticam o Papa para tornar o mundo mais "liberal" e sem regras.
por agora, já só resta que a Igreja reconheça a sexualidade como uma dimensão dos padres, dos bispos, dos cardeais e do próprio Papa. uma sexualidade à luz da moral da própria Igreja, já se vê. não sei é se irá a tempo de travar a derrocada.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

o sagrado e o profano

por estas alturas do ano, tal como acontece no Natal, é costume ler e ouvir coisas a respeito do "sagrado" e do "profano", para separar o que é cristão católico romano daquilo que é pagão. o que diga respeito ao catolicismo tem a chancela de "sagrado", enquanto que o que diga respeito ao paganismo fica com o epíteto de "profano". não há maior disparate do que este. na verdade, o paganismo, sendo a reverência às forças, propriedades e mistérios da natureza mãe, é o domínio do sagrado por excelência. o profano é outra coisa. é o mundo do banal, do quotidiano sem nada de especial que se lhe diga. é a rotina, o lugar onde convivem o "tudo" e o "todos", onde nada tem um sentido para cá nem para lá do horizonte.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

a mulher de César.

o nível da política portuguesa desceu abruptamente de há uns anos para cá. tão abruptamente que começa a ser vomitivo deitar o canto do olho aos jornais diários, aos semanários, aos telejornais e ouvir os noticiários da rádio. cada dia que passa, novo escândalo ou novo pseudo-escândalo, novo polvo ou novo pseudo-polvo, nova tramoia ou nova pseudo-tramoia. os intervenientes são a fina flor da nossa política, da nossa justiça, da nossa finança, dos nossos negócios, da nossa elite. pode dizer-se, ou pode-se pensar, que a culpa é dos jornais, das rádios e das televisões, que já não vão lá sem escândalos, sem títulos de arromba, sem chamarizes que façam tirar-nos da modorra para os ler ou ouvir. e é verdade: a nossa imprensa nunca viveu tão mal que tivesse que ir, como vai agora, comer aos contentores do lixo. e há quem goste. mas a verdade é que a imprensa tem casos ou pseudo-casos porque os ocupantes dos lugares cimeiros não têm a reserva, o recato e a decência para evitarem conversas coloquiais, que nem por serem privadas deixam de ser o que são: impróprias para ocupantes daqueles lugares cimeiros.
a democracia deve ser o regime da igualdade de oportunidades, mas não pode ser o regime da banalidade instalada, da mediocridade, da tomada do poder por quem não tem merecimento nem categoria para o exercer. fala-se cada vez mais nos ordenados dos políticos e há sempre gente disposta a criticá-los e a diminuí-los. o dia a dia está a demonstrar que os verdadeiramente grandes e verdadeiramente capazes não estão para a maçada de ocupar lugares cimeiros a troco do que pagam a quem os exerce. o resultado está aí. as pessoas podem ser sérias, como a mulher de César. mas não têm a categoria necessária para o fazerem parecer.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ortopornografia

chega a ser pornográfica a desfaçatez com que a ignorância em Portugal se opõe à nova norma ortográfica. os argumentos são os mais inacreditáveis, e, de tão afastados que estão da realidade a que se dirigem, chegam a ser incompreensíveis. quase todos se resumem a que o acordo ortográfico que a suporta nos obriga a falar de uma forma diferente e a pronunciar ou despronunciar palavras ou sons que nos são estranhos. noutro país, essa ignorância daria vontade de rir, desligar e botar fora. aqui não. a coisa é séria pelo que revela de ignorância, de chauvinismo, parolice, provincianismo e xenofobia. o acordo é mau porque, supostamente, seria obra de um país (estrangeiro, já se vê) para dominar os outros (a nós, claro). não sendo isso, é o interesse das grandes editoras estrangeiras. mas demonstrando que tem a ganhar mais as editoras nacionais que as estrangeiras, aqui d'el rei que somos uns reles negociantes interesseiros. o que conta é ser contra, as razões vem depois. a melhor que calhar em cada momento.
é claro que a ignorância não se fica por aqui. não sabem de que ano é a norma que defendem. e dão erros de escrita que deitam por terra qualquer defesa de qualquer norma ou falta dela.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

serotolices

cada vez é maior a pressão "científica" para que nos rendamos à tese segundo a qual as nossas alterações do humor, a nossa sensação de sofrimento interior, os nossos sentimentos de infelicidade, a nossa raiva por tudo nos correr de contrafeição, se devem não à reação natural de um ser a uma sociedade infernizante mas, sim, a fenómenos biológicos, melhor, bioquímicos. isto quer dizer que estamos deprimidos, desanimados, revoltados, não pelas razões que nos levam a deprimir, a desanimar e a revoltar-nos, mas porque o teor de certos compostos biológicos no sangue ou nas terminações nervosas está abaixo do que é normal em condições normais. assim sendo, tenha o homem ou a mulher os sentimentos que tiver e as razões que tenha para os ter, a verdade é que não é por essas razões que ele ou ela está deprimido ou deprimida, desanimado ou desanimada. é porque, por coincidência, se deu o caso de ter uma baixa de serotonina, ou outra merdice qualquer, no sangue ou nas terminações nervosas. a conclusão desta teoria é óbvia: se conseguirmos que as taxas dessas tretas no sangue ou nas terminações nervosas se mantenham em níveis ótimos, pode cair o carmo e a trindade, pode morrer o pai, a mãe ou o marido ou a mulher, ou até o próprio, podem penhorar-lhe o carro, a casa, o que tem e o que não tem, pode vir a maior crise social de todos os tempos, pode vir a carestia e a fome, que fica o indivíduo numa naice, feliz da vida, no melhor dos mundos, como um zombie pateta, ou melhor, como um pateta alegre.
o que está por detrás desta teoria são três interesses concorrentes: por um lado, uma indústria que tem de justificar por que nos vende medicamentos para podermos tolerar certas coisas, as pessoas e nós mesmos; por outro lado, um Estado que não tendo formas reais de nos fazer razoavelmente felizes, nos quer assegurar uma tolerância bioquímica à frustração e aos desequilíbrios sociais que ele não é capaz de resolver; e, finalmente, as pessoas, que precisam de ajuda e aceitam tudo o que lhes prometa bem estar, ainda que ilusório.
e viva a serotonina. e viva a serotolice.
e se a baixa da tal serotonina e companhia fosse uma consequência e não uma causa?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

casamento

nos dias de hoje a discussão mais logicamente viciada é a que corre acerca do casamento homossexual. e o sofisma reside em se reinvindicar a igualdade de direitos. ora muito bem: todos nós temos direito a receber um bom salário mensal, todos nós temos direito a uma reforma excelente, todos nós temos direito a ser primeiros-ministros e assim por diante. mas qualquer desses direitos só pode ser realizado depois de observadas as necessárias condições. assim, eu tenho direito a receber um bom salário mensal, mas tenho que satisfazer as condições que estão associadas ao facto de se ter um bom salário mensal. eu tenho direito a uma excelente reforma, mas devo preencher as condições de tempo e de contribuição necessários para poder gozar uma excelente reforma. eu tenho direito a ser primeiro-ministro, mas tenho que obedecer às condições políticas, sociais e de momento que possam fazer de mim primeiro-ministro. é claro, todos temos direito ao casamento. mas seria de supor que esse direito tamém só fosse satisfeito sob as condições necessárias para se celebrar um casamento. e o que é um casamento? ao contrário do que dizem os homossexuais, eles não estão impedidos de casar. ninguém os estorva. nom podem é casar uns com os outros, tal como nom podem casar mais que duas pessoas, nem pessoas que sejam familiares em primeiro grau.
tenho para mim que a reinvindicação do direito dos homossexuais a casarem entre si é um abuso de lógica e uma forma de diminuírem e desagregarem o mundo dos heterossexuais, já de si pouco sólido. não há nenhuma lógica que resista ao absurdo de um casamento sem outra finalidade que a de gerir afetos, coisa que, como sabemos, sai facilmente pela mesma porta por onde entrou.
as uniões sentimentais não têm que ter nenhum estatuto especial, nem têm que ser alvo de nenhuma discriminação. cada qual junta-se com quem quer e gostos não se discutem. mas daí a celebrar um ato administrativo e cívico, daí a envolver o Estado, vai uma grande distância. por mais razão que aquela que os homossexuais reclamam para poderem casar, poderiam reclamar o direito ao casamento civil as uniões poligâmicas e os casais incestuosos. quem sabe quantos heterossexuais apareceriam para celebrar esse tipo de casamentos. mas os homossexuais estão primeiro...
e não venham com a estória da homofobia, porque a verdadeira fobia está no medo do encontro com o sexo oposto.
e, já agora, muito gostava eu de saber o que dirão os homossexuais da possibilidade de legalizar o casamento poligâmico e o casamento incestuoso: que são antinaturais? que são contra a família? não me façam rir...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

corrupção e parolice

assistimos, nos últimos tempos, a uma confusão desastrada entre corrupção e atividade económica. o simples pronunciar da palavra "negócio" é produzido de uma forma subliminar de censura, como se um "negócio" fosse coisa condenável. o mesmo se passa com o acesso a "informação privilegiada", o lobbying e o "tráfico de influências". vê-se bem que ainda não saimos do estadio primário da ruralidade de subsistência, onde a corrupção, segundo esses critérios, nem sequer pode existir. um grande empresário, um grande investidor bem intencionado, afinal de contas aquele que dá esplendor e grandeza a uma economia, nom pode exercer a sua atividade sem um conjunto de pressupostos. um deles é o acesso à "informação privilegiada". seria um desastre que ele estabelecesse a sua empresa, as suas fábricas no local errado. por isso, ter acesso a tempo e horas à "informação privilegiada" que o leve a situar a sua empresa no melhor local parece-me do mais elementar bom senso. o mesmo se passa com o "lobbying" e o "tráfico de influências". ultrapassar burocracias infindas, entraves infinitos, descasos e negligências do aparelho administrativo e das vontades políticas, também me parece sensato. de outro modo, a economia não funciona. isto é assim em todo o mundo desenvolvido. mas não aqui, onde saimos há pouco tempo da idade média rural.
é claro que sou contra a corrupção. é claro que sou contra os que pagam e recebem benesses para ludibriar, enganar, prejudicar os clientes e o estado. para enriquecer mais do que permitiria o limpo e claro desenvolvimento da atividade. mas não confundo "corrupção" com "acesso a informação privilegiada", "lobbying" e "tráfico de influências". porque essa confusão nos conduz a um beco sem saída. e nos devolve, em troca, a nossa incorrigível parolice.