quinta-feira, 20 de setembro de 2012

as melhoras da morte



conheci um velho muito simpático que estava moribundo. ele soube que um dos filhos, que já cá não vinha há décadas, que residia e trabalhava num país distante, vinha propositadamente a Portugal para o ver. 
assim que chegou a Portugal, após uma visita rápida ao pai moribundo, o filho aproveitou para levar a esposa a visitar por sua vez o pai dela, que vivia longe dali num lar de idosos.
entretanto, o moribundo moribundava, nem propriamente vivo nem realmente morto.
finalmente, dias depois, ao fim da tarde, o filho regressou da visita ao sogro.
o velho moribundo acordou. vestiu-se, fez questão de ir fazer companhia à família durante o jantar. parecia animado e feliz. até bebeu um copo de vinho, coisa que não fazia há meses e meses. toda a gente estava encantada com semelhantes melhoras. no fim do jantar deitou-se. no dia seguinte, pela manhã, foi-se embora. para o descanso eterno.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

a tentação do desastre


anda por aí uma onda estranha. cada vez é maior o número de peritos ou candidatos a peritos, bruxos, visionários e afins, que antecipam, com mal disfarçado prazer, a "saída do euro" deste e daquele país - começando pela Grécia, depois Portugal, etc., por aí fora. e pintam a desgraça o melhor que sabem e podem. 
dos países que "saiem" ou são "expulsos", bem se vê. 
claro, a saída do euro é a desgraça completa. só faltava isso. mas será apenas a desgraça completa dos que "saem" ou são "expulsos"?
separando os países "bons" (aqueles que "ficam" no euro), dos países "maus" (aqueles que tem de "sair" ou de ser "expulsos"), o que acontece a uns e a outros? em primeiro lugar, vê-se bem, os países "maus" afundar-se-ão numa depressão medonha, terão de regressar a uma economia de subsistência, e as suas moedas valerão coisa nenhuma no mercado internacional. logo, não poderão comprar nada ao exterior.
acontece que os países "bons", aqueles que tem economias "fortes" e "ficam" no euro, ficam impedidos de exportar as suas maravilhas industriais e tecnológicas, porque à sua volta há só miséria e depressão. e as suas fábricas, excelentes empresas e maravilhoso know how começarão a trabalhar em seco, a criar depósito, a fechar. e vem o desemprego, a recessão, a depressão económica e o desastre. e o "euro" dos que "ficaram" passará a valer nada nos mercados internacionais. o fenómeno começa já a ver-se no abrandamento e até nos indícios de recessão de economias de países "bons", como é o caso da Alemanha. 
não creio que alguém em seu perfeito juízo possa ter prazer, ainda que por mero exercício intelectual, num cenário destes. 
hoje já não sei se o "euro" foi uma boa ou má aposta. não pela ideia em si, que é boa, mas pela forma idiota como foi posto em prática. é caso único de uma moeda única para estados com economias separadas, com finanças separadas, com políticas separadas. andou o carro à frente dos bois. hoje vê-se bem o erro, mas a verdade é que ninguém deu pela asneira antes de a fazer.
agora, na hora do perigo, não há passageiros de primeira nem passageiros de segunda. estamos todos no mesmo barco. em caso de naufrágio, morreremos todos, os "bons" e os "maus", os "bigs" e os "pigs".
esperemos que a tripulação salve o navio, em vez de discutirmos quem deve afogar-se primeiro.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

democracia amansada

vivemos um tempo de grande perturbação de espírito. vemos as coisas pequenas, insignificantes, e deixamos passar as grandes, as que realmente importam. insurgimo-nos contra uns ridículos 40 mil euros de uma deslocação ministerial oficial ao estrangeiro (que manifestamente não podem ser senão, na sua insignificância, um sinal de austeridade patética) e deixamos passar quase em claro as verdadeiras e astronómicas verbas que certos investidores, agiotas, trapaceiros e delinquentes nos deixaram para pagar em certas instituições bancárias. tomamos a nuvem por Juno, atacamos as arvorezinhas, os pequenos arbustos, e esquecemo-nos de atacar a floresta e as suas sequoias. esta mentalidade mesquinha e burra é o terreno onde medra o populismo, a maneira de governar os tansos, submetendo-os sob a aparência de os libertar.
estamos muito sensíveis aos gastos, mas não consideramos as vantagens que eles nos podem trazer. uma coisa é gastar sem retorno, outra coisa é ter mais retorno que aquilo que se gasta. outra coisa ainda é poupar e ficar cada vez mais pobre. porque nunca vi ninguém enriquecer sem investir, quer dizer, gastar.
e nesta estória das poupanças e do clima de engana-meninos em que vivemos, vem a calhar a famosa alteração do modelo autárquico, quer na quantidade de municípios quer na forma de exercer neles o poder democrático. os municípios não são o que são, nem onde são, por questões aleatórias ou sem sentido. eles são o que são por razões históricas, de povoamento, de hábitos de partilha e tomada de decisões, enfim, por coisas que o nosso mundo moderno, ou pós-moderno, como queiram, dispensava muito bem. a reorganização do mapa das freguesias e concelhos não é, porém, de agora. já houve várias ascensões e quedas de concelhos, muitas delas justificadas também por razões históricas. basta reparar na quantidade de pelourinhos (o símbolo do concelho por excelência) que pululam por aí em terras e lugares que já não têm estatatuto de concelho nem poder municipal. mas não é a redução ou alteração do mapa dos concelhos que agora me preocupa. o que me preocupa é a enormidade política e administrativa que se prepara sob o manto sagrado da poupança.
refiro-me à ideia peregrina de tornar os concelhos politicamente monocolores. quer dizer, do espetro político saído de um ato eleitoral, apenas tem relevância o partido mais votado, independentemente do tipo de mais votos ou de maioria que se trate. vai-se poupar uns tostões e o povo, apalermado pela crise, acha muito bem e a democracia vai pelo ribeiro abaixo.
a palavra "concelho" desde logo contradiz essa pretensão absurda. vem do latim concilium e significa reunião, ajuntamento, junta. reunião dos maiores, dos mais velhos, independentemente e mesmo por causa de terem opiniões diferentes sobre os mesmos assuntos. é para isso que serve reunir e falar. para encontrar o melhor caminho de entre um conjunto de opiniões e propostas diferentes.  essa riqueza vale bem o investimento.



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querem agora reduzir os mandatos das autarquias sob o pretexto da poupança. vai daí, arruma-se de uma vez com o gasto em opiniões minoritárias ou mais minoritárias que a do partido mais votado. desnecessárias, por conseguinte. ficamos só com aquelas que recolherem mais votos, nem sequer é necessária a maioria. vamos então poupar um balúrdio em moedas pretas porque essas opiniões minoritárias, melhor, menos votadas, são inúteis e passamos bem sem elas. mas, ó xente, se fica só o partido que tiver mais votos, então também não precisamos dos autarcas que ele nos queira impingir. basta um. porque todos os outros têm a mesma opinião, quer dizer, são inúteis.
fica muito mais barato e democracia nem vê-la.



quarta-feira, 6 de junho de 2012

a loja de arrumos

para que se pudessem precaver, há uns três anos que eu vinha alertando os meus internos da especialidade de psiquiatria para um futuro inexorável: a transformação do venerável hospital de Sobral Cid, uma instituição de peso na história da psiquiatria portuguesa, numa de duas realidades: a sua extinção pura e simples ou a sua degradação completa, sob a forma de loja de arrumações da psiquiatria universitária. o alerta cumpriu-se.
hoje, o ex-hospital de "Sobral Cid" (custa-me, evidentemente, chamar-lhe este nome) é aquilo por que a psiquiatria universitária há muito tempo esperava: o lugar onde esconder o terço do meio e o mau terço da lei de Black, as insuficiências e os maus resultados da abordagem "biológica" e "cognitivo-comportamental". o lado  tecnológico, bonito, exibível, limpo, "científico", para congressista ver, fica na psiquiatria universitária. os casos de "média duração", os "casos difíceis", os aborrecimentos intermináveis, escondem-se nos baixos da estrutura,  fora de portas, para que poucos vejam. e, ainda assim, sob o controle apertado dos doutores da ciência.
nós, os que trabalhámos nos antigos hospitais psiquiátricos, sempre convivemos com as nossas próprias insuficiências, sempre tivemos consciência dos limites da nossa arte, e até sempre tivemos a noção de que urgia uma profunda reforma da prestação dos cuidados de psiquiatria e saúde mental. sempre soubemos que o lugar dos doentes crónicos era noutro tipo de estruturas, residenciais e autonomizadoras, sob projetos de reabilitação virados para a realidade exterior, para a vida do mundo tal como ele é. sempre soubemos que os psiquiatras sozinhos não iriam a lado nenhum. que a organização multidisciplinar e transprofissional era a única possibilidade de intervenção. mas quanto a isso nada melhorou, pelo contrário. desapareceram os hospitais psiquiátricos mas não os doentes crónicos nem a sua degradação institucional, nem a forma de lidar com ela. se estavam em instituições públicas, mudaram para instituições privadas sob o mesmo modelo, mas sem as "complicações" e custos da transprofissionalidade. mudaram-nos sem qualquer preparação prévia, como se não tivessem história, relações, amizades, raizes. esconderam-nos. e, pior que isso, escondem agora também os doentes que não se "curam" em 10 dias ou que teimam em resistir às terapêuticas.
as próprias consultas externas, que enxameavam os lugares centralizados onde funcionavam, estão sendo agora espalhadas pelos vários  centros de saúde da região, sob a capa de uma espécie de "psiquiatria comunitária". já ninguém as vê ou vai ver. estão escondidas.
hoje já não temos uma "má psiquiatria" visível a olho nu. para a ver é preciso organizar uma excursão cuidadosamente planeada.
parece tudo melhor. mas está tudo na mesma ou pior.


terça-feira, 15 de maio de 2012

da reorganização dos serviços de psiquiatria em Coimbra

a propósito da reorganização dos serviços de psiquiatria em Coimbra e do que se vai dizendo sobre isso, pela voz dos mais lídimos representantes da psiquiatria universitária: 

tenho muita dificuldade em compreender em que diferiam as condições de alojamento, de clima, de reabilitação e dignidade humana do hospital de Lorvão, relativamente às condições do hospital de Sobral Cid ou do Centro de Arnes ou, até, de certos Departamentos mais ou menos "exemplares" de Psiquiatria e Saúde Mental, designadamente da Zona Centro e, mesmo, das existentes nas impecáveis e amplas instalações do HUC. devo dizer que estou à vontade porque os conheço todos. 
tenho também muita dificuldade em compreender em que diferem as respetivas equipas multidisciplinares, e as coisas que fazem, ou faziam, das que são feitas em setting universitário. pois, mas a questão não é essa, obviamente. a questão é de hegemonia, de toma dos lugares de direção e de fuga às filas de excedentários e da mobilidade anunciada. tudo o mais são sofismas e coisas que, para parecerem razões, se dizem por dizer. 
é claro que o futuro será dirigido por quem tem mais estatuto e títulos do que propriamente diferenças de fazer. e está certo, sempre assim foi e há de ser. pelo menos, têm mais entrada nos centros decisórios.
porém, do muito que se tem dito sobre o tema, não houve ainda uma única referência ao que se fará de diferente. apenas se promete, vagamente, que se fará melhor, ou se calha com mais "ciência" e mais "tecnologia", o que sempre se tem feito. 
Unidades de Cuidados Continuados de Psiquiatria, isso é o quê: asilos velhos com nome novo? aonde vai o tempo em que se falava de residências comunitárias, reabilitação cívica ("empowerment"), formação profissional, emprego protegido, enfim, essas coisas diferentes... e, é claro, aonde vai a Psiquiatria Comunitária, agora transformada em consultas de psiquiatria nos Centros de Saúde... 
acabar com os velhos hospitais psiquiátricos, sim, concerteza. não posso estar mais de acordo. mas se apenas mudamos os doentes, internados ou ambulatórios, de serviços velhos, onde estão adaptados, para serviços novos, onde terão de se adaptar, e transferi-los de uns sítios para os outros, muito pouco mudará efetivamente no modelo de abordagem da doença mental e menos ainda na dignidade humana dos doentes. e mais do que o genuíno interesse pelo bem estar dos doentes nesta transferência dos hospitais psiquiátricos públicos para instituições privadas - pois é disso que se trata -, estão prioritariamente em causa interesses de natureza orçamental, já que sai muito mais barato tê-los internados em instituições privadas. 
por sua vez, sai muito mais barato manter o mesmo modelo de intervenção, agora dirigido pelo hospital universitário, do que por em marcha uma reforma profunda dos serviços de psiquiatria e saúde mental. 
e para mais, este modelo "biológico" dominante é também o que mais convém aos interesses da medicina privada. mas os interesses são evidentemente respeitáveis, já que é neles e deles que vivemos. não vale a pena ser hipócrita. 
bom, e finalizando, há uma questão que, por absurda, me recuso a admitir: que esta e outras tomadas de posição da psiquiatria universitária traduzam o receio de vir a ser escorraçada para o hospital psiquiátrico que ainda sobrevive, saindo, assim do convívio com as restantes especialidades da medicina. isso, sim, seria o retrocesso completo. 

mas para salvar a própria pele não vejo necessidade nenhuma de dizer mal dos outros. 



PS: dentro de uma guerra há sempre lutas internas entre generais do mesmo exército. neste caso, a luta pelo salão das tecnologias de ponta. uma comédia.

(josé cunha-oliveira, 14-05-2012)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

a criação do mundo


1. o grande criador de tudo é uma entidade chamada "milhões de anos". ninguém me explica é como essa entidade chamada "milhões da anos" faz as coisas. nem sequer me dão tempo para saber se é verdade...

2. estou meio tentado a acreditar no conto do "Big Bang". o nada explodiu e pum!, cá estamos, eu e tudo, milhões de anos depois.
mas eu acho que o nada simplesmente saiu de outro tudo, pelo buraco do fundo. é sempre o mesmo rebuliço, o mesmo mar, os mesmos vendavais, os mesmos remoinhos, a mesma poesia.

3. a esta hora, umas pequenas células do meu organismo devem estar a pensar na origem do universo onde vivem, isto é, aquela coisa impossível de compreender que sou eu próprio. e concluem, se forem cientistas inteligentes, que nasci de uma fusão primordial entre partes minúsculas de dois universos. e dessa fusão surgiu um Big Bang, que deu origem ao universo onde elas vivem.

sábado, 31 de março de 2012

partos em casa

veio agora a Ordem dos Enfermeiros com a redescoberta dos partos em casa, porque assim e porque assado, porque torna e porque deixa, e competências para aqui e vantagens para ali, e enfermeiros e médicos.
pois muito bem. que alguém contrate um(a) enfermeiro(a) parteiro(a), perdão, obstetra, ou mesmo um(a) médico(a) obstetra, para ter o seu parto assistido em casa, é um problema de contratante e contratado(o), ninguém tem nada com isso. ponto final.
mas Serviço Nacional de Saúde é outra coisa.
virem agora com a conversa do parto natural e dos 85 a 90% dos casos em que corre tudo bem, é que não.
primeiro, se o parto é assim tão natural, coisa e tal, que vai lá fazer o parteiro ou o obstetra: não podem as senhoras parir na horta ou acocoradas em casa?
segundo, se 85 a 90% dos partos correm bem, quer dizer que 10 a 15% não correm assim tão bem. e, então, no caso desses 10 a 15% quem nos acode? quem assegura o transporte imediato a um centro especializado, se a coisa ocorre, digamos, na serra de São Pedro Dias ou em casa do diabo mais velho? e, numa altura em que a contenção financeira está a condicionar o transporte de ambulância, que farão estes senhores enfermeiros parteiros? rezam ao santo da freguesia, fazem uma novena, benzem a mãe e o feto?
eu já nem falo das condições de higiene e assepsia e dos problemas logísticos associados ao parto no domicílio.
já nem falo dos processos que podem correr por mau sucesso, negligência e má prática aos enfermeiros parteiros, perdão, obstetras. a mim pouco me importa. o problema é deles. preocupa-me é a decadência das condições de saúde pública portuguesa, que tanto custaram a construir.
o que eu não percebo é muito bem esta vontade de andar para trás. quer dizer, percebo até muito bem. para um(a) enfermeiro(a) parteiro(a), perdão, obstetra, ir assistir um parto ao domicílio é outra euro-coisa. mas lá porque o parto ao domicílio é mais euro-rentável para os enfermeiros da Ordem, vamos nós ter de estragar a taxa de mortalidade infantil, que é uma referência a nível mundial?