sábado, 22 de setembro de 2012

a empregada, a união de facto e a justiça portuguesa

o velho tinha uma empregada, que lhe fazia a cama, as compras, a comida e as limpezas. e a coisa corria bem. certo dia, o velho adoeceu e a empregada, solícita, comunicou o facto à família dele, que vivia muito longe, do outro lado do mar. que ele era da família, logo, estava certa, cuidariam bem dele e essas coisas. o velho foi internado, e como exigia cuidados de mais que uma pessoa, assim que teve alta do hospital, a família providenciou-lhe um lar de excelente recorte e qualidade. entretanto, a empregada foi fazendo da casa do velho casa sua. instada a abandoná-la de livre vontade, a empregada respondia que estava em casa dela, pois que vivia em união de facto com o velho. entretanto, a idade, a doença e o destino fizeram o que acharam por bem fazer e a casa continuava ocupada pela empregada do velho.
foi preciso recorrer à justiça. o caso arrastou-se quase uma década e, finalmente, a decisão surgiu: não havia quaisquer indícios ou provas de união de facto e a empregada teria que devolver a casa aos herdeiros habilitados, entre tudo o mais, por testamento explícito. foi dado à mulher um prazo de dois anos para devolver a casa à família. os anos passaram.
e quando a família se preparava para tomar posse do que era seu, uma nova condição surgiu: era preciso mover uma ação de execução da sentença judicial. está certo. viva a justiça.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

bom para a tosse

há doentes que me aparecem carregadinhos de medicamentos, tantos, tantos, que quase não há horas no dia que cheguem para os tomar. não, não é "apenas" excesso de zelo médico, é muitas vezes o gosto ou a necessidade de recorrer a médico atrás de médico e essa coisa muito portuguesa de juntar a medicação do último médico às medicações dos médicos precedentes. de jeito que, às vezes, depois de um cuidadoso inquérito a tudo o que realmente o doente toma, é preciso suspender uma série de medicações inúteis, porque repetidas, ou prejudiciais no meio de tanta interação farmacológica. não é tarefa fácil. à uma, porque o mais certo é que o paciente vá juntar a minha prescrição à prescrição dos colegas que me precederam; à outra, porque o doente se pode sentir desamparado pela suspensão de medicamentos que tinha por essenciais ao seu bem-estar e à sua permanência no mundo dos vivos.
de jeito que às vezes me dá vontade de brincar, de me impor pelo absurdo. pego numa caixa de comprimidos e noutra e noutra, e digo ao paciente : " - olhe, estes remédios são muito bons para a tosse..."
é costume olharem para mim com ar surpreso e confuso:
" - para a tosse, doutor?..."
" - sim, para a tosse. se tomar estes medicamentos todos os dias e como deve ser, em morrendo não tosse mais..."

a maioria entende e ri-se. e os que não entendem é certo e sabido que juntam a minha medicação à que já estavam a tomar.

"se a montanha não vem a Maomé, vai Maomé à montanha"

conta-se que certo dia uns árabes renitentes pediram um milagre ao Profeta, como prova da justeza da sua doutrina. então, este ordenou ao monte Safa que viesse até si. o monte fez-se de novas e não obedeceu. Maomé não se deu por achado. virou-se para os provocadores e sentenciou: "irei eu à montanha agradecer a Deus ter poupado uma geração de obstinados ao desastre que seria se a montanha se tivesse deslocado».

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

as melhoras da morte



conheci um velho muito simpático que estava moribundo. ele soube que um dos filhos, que já cá não vinha há décadas, que residia e trabalhava num país distante, vinha propositadamente a Portugal para o ver. 
assim que chegou a Portugal, após uma visita rápida ao pai moribundo, o filho aproveitou para levar a esposa a visitar por sua vez o pai dela, que vivia longe dali num lar de idosos.
entretanto, o moribundo moribundava, nem propriamente vivo nem realmente morto.
finalmente, dias depois, ao fim da tarde, o filho regressou da visita ao sogro.
o velho moribundo acordou. vestiu-se, fez questão de ir fazer companhia à família durante o jantar. parecia animado e feliz. até bebeu um copo de vinho, coisa que não fazia há meses e meses. toda a gente estava encantada com semelhantes melhoras. no fim do jantar deitou-se. no dia seguinte, pela manhã, foi-se embora. para o descanso eterno.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

a tentação do desastre


anda por aí uma onda estranha. cada vez é maior o número de peritos ou candidatos a peritos, bruxos, visionários e afins, que antecipam, com mal disfarçado prazer, a "saída do euro" deste e daquele país - começando pela Grécia, depois Portugal, etc., por aí fora. e pintam a desgraça o melhor que sabem e podem. 
dos países que "saiem" ou são "expulsos", bem se vê. 
claro, a saída do euro é a desgraça completa. só faltava isso. mas será apenas a desgraça completa dos que "saem" ou são "expulsos"?
separando os países "bons" (aqueles que "ficam" no euro), dos países "maus" (aqueles que tem de "sair" ou de ser "expulsos"), o que acontece a uns e a outros? em primeiro lugar, vê-se bem, os países "maus" afundar-se-ão numa depressão medonha, terão de regressar a uma economia de subsistência, e as suas moedas valerão coisa nenhuma no mercado internacional. logo, não poderão comprar nada ao exterior.
acontece que os países "bons", aqueles que tem economias "fortes" e "ficam" no euro, ficam impedidos de exportar as suas maravilhas industriais e tecnológicas, porque à sua volta há só miséria e depressão. e as suas fábricas, excelentes empresas e maravilhoso know how começarão a trabalhar em seco, a criar depósito, a fechar. e vem o desemprego, a recessão, a depressão económica e o desastre. e o "euro" dos que "ficaram" passará a valer nada nos mercados internacionais. o fenómeno começa já a ver-se no abrandamento e até nos indícios de recessão de economias de países "bons", como é o caso da Alemanha. 
não creio que alguém em seu perfeito juízo possa ter prazer, ainda que por mero exercício intelectual, num cenário destes. 
hoje já não sei se o "euro" foi uma boa ou má aposta. não pela ideia em si, que é boa, mas pela forma idiota como foi posto em prática. é caso único de uma moeda única para estados com economias separadas, com finanças separadas, com políticas separadas. andou o carro à frente dos bois. hoje vê-se bem o erro, mas a verdade é que ninguém deu pela asneira antes de a fazer.
agora, na hora do perigo, não há passageiros de primeira nem passageiros de segunda. estamos todos no mesmo barco. em caso de naufrágio, morreremos todos, os "bons" e os "maus", os "bigs" e os "pigs".
esperemos que a tripulação salve o navio, em vez de discutirmos quem deve afogar-se primeiro.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

democracia amansada

vivemos um tempo de grande perturbação de espírito. vemos as coisas pequenas, insignificantes, e deixamos passar as grandes, as que realmente importam. insurgimo-nos contra uns ridículos 40 mil euros de uma deslocação ministerial oficial ao estrangeiro (que manifestamente não podem ser senão, na sua insignificância, um sinal de austeridade patética) e deixamos passar quase em claro as verdadeiras e astronómicas verbas que certos investidores, agiotas, trapaceiros e delinquentes nos deixaram para pagar em certas instituições bancárias. tomamos a nuvem por Juno, atacamos as arvorezinhas, os pequenos arbustos, e esquecemo-nos de atacar a floresta e as suas sequoias. esta mentalidade mesquinha e burra é o terreno onde medra o populismo, a maneira de governar os tansos, submetendo-os sob a aparência de os libertar.
estamos muito sensíveis aos gastos, mas não consideramos as vantagens que eles nos podem trazer. uma coisa é gastar sem retorno, outra coisa é ter mais retorno que aquilo que se gasta. outra coisa ainda é poupar e ficar cada vez mais pobre. porque nunca vi ninguém enriquecer sem investir, quer dizer, gastar.
e nesta estória das poupanças e do clima de engana-meninos em que vivemos, vem a calhar a famosa alteração do modelo autárquico, quer na quantidade de municípios quer na forma de exercer neles o poder democrático. os municípios não são o que são, nem onde são, por questões aleatórias ou sem sentido. eles são o que são por razões históricas, de povoamento, de hábitos de partilha e tomada de decisões, enfim, por coisas que o nosso mundo moderno, ou pós-moderno, como queiram, dispensava muito bem. a reorganização do mapa das freguesias e concelhos não é, porém, de agora. já houve várias ascensões e quedas de concelhos, muitas delas justificadas também por razões históricas. basta reparar na quantidade de pelourinhos (o símbolo do concelho por excelência) que pululam por aí em terras e lugares que já não têm estatatuto de concelho nem poder municipal. mas não é a redução ou alteração do mapa dos concelhos que agora me preocupa. o que me preocupa é a enormidade política e administrativa que se prepara sob o manto sagrado da poupança.
refiro-me à ideia peregrina de tornar os concelhos politicamente monocolores. quer dizer, do espetro político saído de um ato eleitoral, apenas tem relevância o partido mais votado, independentemente do tipo de mais votos ou de maioria que se trate. vai-se poupar uns tostões e o povo, apalermado pela crise, acha muito bem e a democracia vai pelo ribeiro abaixo.
a palavra "concelho" desde logo contradiz essa pretensão absurda. vem do latim concilium e significa reunião, ajuntamento, junta. reunião dos maiores, dos mais velhos, independentemente e mesmo por causa de terem opiniões diferentes sobre os mesmos assuntos. é para isso que serve reunir e falar. para encontrar o melhor caminho de entre um conjunto de opiniões e propostas diferentes.  essa riqueza vale bem o investimento.



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querem agora reduzir os mandatos das autarquias sob o pretexto da poupança. vai daí, arruma-se de uma vez com o gasto em opiniões minoritárias ou mais minoritárias que a do partido mais votado. desnecessárias, por conseguinte. ficamos só com aquelas que recolherem mais votos, nem sequer é necessária a maioria. vamos então poupar um balúrdio em moedas pretas porque essas opiniões minoritárias, melhor, menos votadas, são inúteis e passamos bem sem elas. mas, ó xente, se fica só o partido que tiver mais votos, então também não precisamos dos autarcas que ele nos queira impingir. basta um. porque todos os outros têm a mesma opinião, quer dizer, são inúteis.
fica muito mais barato e democracia nem vê-la.



quarta-feira, 6 de junho de 2012

a loja de arrumos

para que se pudessem precaver, há uns três anos que eu vinha alertando os meus internos da especialidade de psiquiatria para um futuro inexorável: a transformação do venerável hospital de Sobral Cid, uma instituição de peso na história da psiquiatria portuguesa, numa de duas realidades: a sua extinção pura e simples ou a sua degradação completa, sob a forma de loja de arrumações da psiquiatria universitária. o alerta cumpriu-se.
hoje, o ex-hospital de "Sobral Cid" (custa-me, evidentemente, chamar-lhe este nome) é aquilo por que a psiquiatria universitária há muito tempo esperava: o lugar onde esconder o terço do meio e o mau terço da lei de Black, as insuficiências e os maus resultados da abordagem "biológica" e "cognitivo-comportamental". o lado  tecnológico, bonito, exibível, limpo, "científico", para congressista ver, fica na psiquiatria universitária. os casos de "média duração", os "casos difíceis", os aborrecimentos intermináveis, escondem-se nos baixos da estrutura,  fora de portas, para que poucos vejam. e, ainda assim, sob o controle apertado dos doutores da ciência.
nós, os que trabalhámos nos antigos hospitais psiquiátricos, sempre convivemos com as nossas próprias insuficiências, sempre tivemos consciência dos limites da nossa arte, e até sempre tivemos a noção de que urgia uma profunda reforma da prestação dos cuidados de psiquiatria e saúde mental. sempre soubemos que o lugar dos doentes crónicos era noutro tipo de estruturas, residenciais e autonomizadoras, sob projetos de reabilitação virados para a realidade exterior, para a vida do mundo tal como ele é. sempre soubemos que os psiquiatras sozinhos não iriam a lado nenhum. que a organização multidisciplinar e transprofissional era a única possibilidade de intervenção. mas quanto a isso nada melhorou, pelo contrário. desapareceram os hospitais psiquiátricos mas não os doentes crónicos nem a sua degradação institucional, nem a forma de lidar com ela. se estavam em instituições públicas, mudaram para instituições privadas sob o mesmo modelo, mas sem as "complicações" e custos da transprofissionalidade. mudaram-nos sem qualquer preparação prévia, como se não tivessem história, relações, amizades, raizes. esconderam-nos. e, pior que isso, escondem agora também os doentes que não se "curam" em 10 dias ou que teimam em resistir às terapêuticas.
as próprias consultas externas, que enxameavam os lugares centralizados onde funcionavam, estão sendo agora espalhadas pelos vários  centros de saúde da região, sob a capa de uma espécie de "psiquiatria comunitária". já ninguém as vê ou vai ver. estão escondidas.
hoje já não temos uma "má psiquiatria" visível a olho nu. para a ver é preciso organizar uma excursão cuidadosamente planeada.
parece tudo melhor. mas está tudo na mesma ou pior.