quarta-feira, 21 de novembro de 2012

o touro e o burro


temos o Natal à porta. aquele tempo em que o sol se lembrou de re-nascer precisamente no mesmo dia em que se diz que Jesus nasceu: o solstício de inverno. aquele tempo mágico, repleto de des-razões e emoções, de maravilhas e inconsistências, de pastores que saem das inverneiras a caminho das brandas, em sentido contrário às estações. de ovelhas que pastam onde devia estar a neve. aquele tempo do boi solar e do burro da escuridão. aquele tempo de Mitra. aquele tempo dos presentes, dos Reis Magos, das chaminés, do alegre pinheiro, do Pai Natal e das renas. aquele tempo coreografado por Francisco de Assis na representação do presépio. 
não sei que raio deu ao Dr. Ratzinger, teólogo das coisas, papa Bento XVI. diz que o touro e o burro nunca estiveram lá. é claro que não. nem o burro, nem o touro, nem o resto. mas era escusado destruir a magia da coisa.


e quem deu o tiro no próprio pé que faça o curativo.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

o homenzinho muito inho

havia um homenzinho muito inho que chefiava uma espelunca. quando ele chegou à espelunca não havia mais ninguém que a pudesse chefiar, pelo que o homenzinho muito inho ficou chefe, assim sem mais nem menos. naquela espelunca fazia-se todo o género de falcatruas, porque era uma espelunca oficial, e nas espeluncas oficiais era mais fácil fazer falcatruas. quando havia obras ou aquisições na espelunca, fazia-se um concurso, nomeava-se sempre os mesmos júris e ganhavam sempre os mesmos concorrentes. de jeito que algumas telhas, mosaicos, madeiras, ferros, vidros, fios elétricos, argamassas e tijolos iam parar, misteriosamente, às casas dos membros dos júris. toda a gente sabia disso e falava do assunto à boca pequena, mas se lhes perguntavam diretamente alguma coisa aí já não sabiam de nada, que é por causa. e a coisa continuava e até dava jeito a muita gente.
o homenzinho muito inho era um ditador, rancoroso e vingativo, mas não era por mal. hoje dava uma ordem, amanhã dava a contrária e todos tinham que obedecer cegamente, como se toda a ordem e o seu contrário fizessem o mesmo sentido. e se alguém lhe apontasse algum defeito ou assim, quer dizer, se alguém o criticasse, o homenzinho muito inho esperava pacientemente a hora em que pudesse atacar. nunca atacava de frente, porque era demasiado pequeno para atacar de frente. mas assim que tivesse uma pentelhice legal, uma deconhecida ou insignificante formalidade burocrática por onde atacar, atacava. escrevia ou mandava escrever cartas anónimas ao ministro das espeluncas, que logo instaurava o respetivo processo com toda a pompa e circunstância próprias de um ministro das espeluncas.


o homenzinho muito inho sofria de uma coisa a que chamava enxaquecas. sempre que tinha de tomar parte numa reunião do ministério, de uma direção-geral ou de um conselho regional ou local do ministério das espeluncas, tinha um ataque de enxaqueca, de jeito que nunca ninguém soube ao certo o que o homenzinho muito inho pensava a respeito fosse do que fosse, porque as enxaquecas o impediam de exprimir um pensamento, mesmo muito pequeno.
o homenzinho muito inho era sempre um grande entusiasta do partido que estivesse no governo, mas só até que os meteorologistas da política indicassem que ia haver mudança de ventos. aí punha-se a jeito para agarrar os novos ventos e estava sempre do lado do partido que interessava.
um dia, o homenzinho muito inho desapareceu, por força da idade ou assim. nunca mais ninguém ouviu falar nele. e nem os membros dos júris dos concursos de obras e aquisições que se faziam na espelunca quiseram saber se estava muito vivo ou muito morto.
era um bom homem.



sábado, 3 de novembro de 2012

ai aguentou, aguentou...


o moleiro tinha um burro. e meteu-se-lhe em cabeça ao moleiro que o burro comia demais para o que trabalhava. embora o burro, coitado, não comesse mais, nem sequer tanto, que os burros da concorrência. vai daí, o moleiro achou, na sua sabed
oria de algibeira, que melhor seria cortar na ração do burro, pois que cortando na ração do burro, teria maior lucro. e o burro aguentou? ai aguentou, aguentou...então o moleiro achou ainda melhor obrigar o burro a trabalhar dias seguidos, sem domingos nem feriados e mais horas por dia. e o burro aguentou? ai aguentou, aguentou...
aí o moleiro achou melhor insistir na dose e cortou de novo na ração do burro. aí o burro começou a definhar, a emagrecer, de uma elegância nunca vista. e o moleiro rejubilou: "bem vistas as coisas, o meu burro sofria de obesidade, agora que está mais magrinho até vai viver mais tempo. isto não podia correr melhor...". 
e o burro aguentou? ai aguentou, aguentou.
até que certo dia, de manhã, quando foi buscar o burro pro trabalho, o burro nem concordou nem discordou. estava simplesmente ali, absorto, de olhos perdidos no infinito. o moleiro, para castigo, cortou-lhe um pouco mais ainda na ração.
e desta vez o burro já não aguentou. e o moleiro, sem burro e sem explicação para tão estranho fenómeno, morreu de fome e de burrice.


domingo, 30 de setembro de 2012

nem sempre o caminho é sempre em frente


quando se construiu a autoestrada A1, havia troços por acabar. a interrupção da estrada e as vias alternativas estavam bem sinalizadas, acompanhadas dos respetivos sinais de trânsito proibido na autoestrada e indicação do caminho de desvio.
acontece que há sempre quem se ache mais inteligente e mais iluminado que os outros e não queira saber de avisos, de sinais, nem mesmo de barreiras a marcar o caminho proibido. 

numa dessas interrupções de autoestrada, motivada pela construção de um viaduto, um condutor e seus acompanhantes decidiram ignorar avisos, sinais e barreiras e seguir em frente. resultado: o viaduto ainda não estava concluido e o carro, seu condutor e ocupantes cairam no fosso. ninguém sobreviveu. 


à atenção de quem se acha mais inteligente que os outros e julga que só existe um caminho: em frente. às vezes esse caminho é o único que não existe.


sábado, 22 de setembro de 2012

a empregada, a união de facto e a justiça portuguesa

o velho tinha uma empregada, que lhe fazia a cama, as compras, a comida e as limpezas. e a coisa corria bem. certo dia, o velho adoeceu e a empregada, solícita, comunicou o facto à família dele, que vivia muito longe, do outro lado do mar. que ele era da família, logo, estava certa, cuidariam bem dele e essas coisas. o velho foi internado, e como exigia cuidados de mais que uma pessoa, assim que teve alta do hospital, a família providenciou-lhe um lar de excelente recorte e qualidade. entretanto, a empregada foi fazendo da casa do velho casa sua. instada a abandoná-la de livre vontade, a empregada respondia que estava em casa dela, pois que vivia em união de facto com o velho. entretanto, a idade, a doença e o destino fizeram o que acharam por bem fazer e a casa continuava ocupada pela empregada do velho.
foi preciso recorrer à justiça. o caso arrastou-se quase uma década e, finalmente, a decisão surgiu: não havia quaisquer indícios ou provas de união de facto e a empregada teria que devolver a casa aos herdeiros habilitados, entre tudo o mais, por testamento explícito. foi dado à mulher um prazo de dois anos para devolver a casa à família. os anos passaram.
e quando a família se preparava para tomar posse do que era seu, uma nova condição surgiu: era preciso mover uma ação de execução da sentença judicial. está certo. viva a justiça.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

bom para a tosse

há doentes que me aparecem carregadinhos de medicamentos, tantos, tantos, que quase não há horas no dia que cheguem para os tomar. não, não é "apenas" excesso de zelo médico, é muitas vezes o gosto ou a necessidade de recorrer a médico atrás de médico e essa coisa muito portuguesa de juntar a medicação do último médico às medicações dos médicos precedentes. de jeito que, às vezes, depois de um cuidadoso inquérito a tudo o que realmente o doente toma, é preciso suspender uma série de medicações inúteis, porque repetidas, ou prejudiciais no meio de tanta interação farmacológica. não é tarefa fácil. à uma, porque o mais certo é que o paciente vá juntar a minha prescrição à prescrição dos colegas que me precederam; à outra, porque o doente se pode sentir desamparado pela suspensão de medicamentos que tinha por essenciais ao seu bem-estar e à sua permanência no mundo dos vivos.
de jeito que às vezes me dá vontade de brincar, de me impor pelo absurdo. pego numa caixa de comprimidos e noutra e noutra, e digo ao paciente : " - olhe, estes remédios são muito bons para a tosse..."
é costume olharem para mim com ar surpreso e confuso:
" - para a tosse, doutor?..."
" - sim, para a tosse. se tomar estes medicamentos todos os dias e como deve ser, em morrendo não tosse mais..."

a maioria entende e ri-se. e os que não entendem é certo e sabido que juntam a minha medicação à que já estavam a tomar.

"se a montanha não vem a Maomé, vai Maomé à montanha"

conta-se que certo dia uns árabes renitentes pediram um milagre ao Profeta, como prova da justeza da sua doutrina. então, este ordenou ao monte Safa que viesse até si. o monte fez-se de novas e não obedeceu. Maomé não se deu por achado. virou-se para os provocadores e sentenciou: "irei eu à montanha agradecer a Deus ter poupado uma geração de obstinados ao desastre que seria se a montanha se tivesse deslocado».