quis fazer um poema
sem tema
e saiu-me um poema
cujo tema
é não ter tema
não se pode falar sobre o nada
porque o nada aparece
como coisa
e onde poisa
tece.
terça-feira, 29 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
a APA e as "mental ilnesses"
de uma só penada, a APA (American Psychiatric Association) brindou-nos com duas novidades. a primeira é que o tirar "selfies", fotografias a si próprio através de telemóveis, é uma doença e sendo doença é tratável. a segunda é que o "fundamentalismo religioso" pode vir a ser tratado como doença mental.
a questão é mais preocupante do que cómica. na verdade,
poderá o fundamentalismo religioso vir a ser "tratado" como uma doença mental? poder pode. pode é "tratar-se" uma coisa que não é doença.
poderão "outras formas de crenças ideológicas potencialmente prejudiciais para a sociedade" vir a ser tratadas como doenças? poder podem. pode é "tratar-se" coisas que não são doenças.
poderá a homossexualidade ser "tratada" como uma doença mental? poder pôde, mas já não é doença.
poderá a mania de tirar "selfies" ser chamada doença mental? pelos vistos pode. APA dixit. diz, está dito.
estou safo. não preciso de "tratamento", nem de uma "doença" nem de "outras".
mas...a psiquiatria no papel de polícia de costumes ou censora oficial? faltava-me essa...
domingo, 15 de dezembro de 2013
o avô José da Cunha
o avô José da Cunha era um homem engraçado. tinha a testa alta e direita e usava bigode tipo galego, diferente do bigode francês do avô Rodrigues.
não tenho a mínima ideia dele, tinha 2 anos quando ele morreu, mas o que se conta dele e o que se pode analisar dá para entender alguma coisa.
chamava-se apenas "José da Cunha", era um excelente marceneiro, homem de obra grande e resistente. fazia armários que eram autênticas casas. muita da sua mobília ainda hoje subsiste.
trabalhou bastantes anos no Porto e aí convenceram-no a arranjar um nome sonante, mais afidalgado. não era indicado ter só nome e sobrenome, era melhor ter um nome mais comprido. nesse tempo não havia Registo Civil e podia-se alterar o nome em qualquer altura. e, assim, pôde acrescentar ao "José da Cunha" um sobrenome de família: Fernandes.
mas ninguém o conhecia nem por José da Cunha, nem por José da Cunha Fernandes, nem por Fernandes. como era de Guimarães, todos lhe chamavam no Porto o "senhor Guimarães". e vai daí, oficializou o nome por que era conhecido e passou a ser "José da Cunha Fernandes Guimarães". um nome majestoso, como convinha mais ao seu porte.
tinha outras coisas.
aos filhos deu nomes começados por A e por E, e apenas um começado por M:
Adelaide
António
Arlindo
Arménio
Elisa
Ermelinda
Etelvina
Maria
diz-se que impunha respeito.
mas há sempre quem ache que respeito é uma coisa e medo é outra.
certo dia, à mesa da ceia, crescia uma algazarra fora dos critérios de tolerabilidade do meu avô Cunha. o qual, com solenidade bastante, terá dito:
- não quero ouvir nem mais um pio!!
eis senão quando, se ouve, vinda lá do seu cantinho, a vozinha subversiva da então pequena Ermelinda:
- piiiuuui....
risada geral.
dizem que o meu avô, sem perder a compostura, também se riu de vontade.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
as Ordens profissionais
as ordens profissionais são instituições de natureza corporativa que têm por função preparar, creditar e regular o exercício de uma profissão liberal, conceder o estatuto de especialista ou perito diferenciado a alguns dos seus membros, regulamentar as relações entre profissionais do mesmo ofício e estabelecer regras de boas práticas e princípios de natureza deontológica e ética próprios da sua atividade.
com o tempo, algumas dessas profissões liberais evoluíram para estatutos profissionais diversos, por vezes sobrepostos.
os profissionais liberais tornaram-se também profissionais assalariados, ora como funcionários públicos, ora como funcionários de instituições privadas, muitas vezes propriedade de outros profissionais da mesma profissão.
e as ordens, entre elas a dos médicos e a dos advogados, começaram a oscilar entre intervenções e preocupações de natureza profissional liberal e intervenções e preocupações de natureza sindical - umas coloridas com tintas de sindicatos públicos, outras com tintas de sindicatos do setor privado.
em boa verdade, deixaram de ser "Ordens", no sentido exato do termo.
dado que, com o passar do tempo e a evolução das sociedades, os filiados de algumas Ordens [como a dos médicos e a dos advogados] passaram a ser predominantemente assalariados, elas começaram, na prática, a assumir funções cada vez mais sindicais, deixando para trás as suas atribuições originais.
em casos mais recentes, outras Ordens profissionais emanaram e cresceram a partir de sindicatos, o que está em contradição com as necessidades históricas da criação de estruturas reguladoras de profissões livres.
mas a sindicalização das Ordens é a sua morte.
os sindicatos fazem isso melhor e com menos entraves, confusões e hipocrisias.
este enfraquecimento das Ordens manifesta-se em múltiplas perdas e sucessivas desautorizações. designadamente, já nem sequer têm voz nem achamento na determinação do valor dos atos profissionais praticados pelos seus membros, assistindo-se a uma desvalorização progressiva do seu preço.
atadas de pés e mãos, já sem a sorte grande, resta-lhes a terminação: a ética [ou melhor, a estética ou arte de bem parecer] e o poder de punir. que, curiosamente, partilham com as tutelas, as entidades patronais privadas, a comunicação social e os tribunais.
talvez por isso, os bastonários, os portadores do bastão, se venham multiplicando, hoje em dia, em declarações bombásticas de um reinvindicacionismo e de um radicalismo infantis, que só acrescentam ridículo ao que já não tem substância.
talvez por isso, os bastonários, os portadores do bastão, se venham multiplicando, hoje em dia, em declarações bombásticas de um reinvindicacionismo e de um radicalismo infantis, que só acrescentam ridículo ao que já não tem substância.
Ordens? passo.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
sugestão em forma de apelo
na minha humilde condição de
português em grande, daqueles que veem o mundo pelo lado do que existe de comum;
na minha ainda mais humilde condição de galego da Grande Galiza, ou seja, de
português do Grande Portugal:
venho sugerir e apelar a que:
- as editoras portuguesas, pelo
menos as do Norte, e com especial incidência as do Porto, publiquem na
nossa ortografia comum, que é a do Acordo Ortográfico de 1990, os texto, os
livros, os romances, a ficção, as poesias dos autores galegos reintegracionistas ou
simpatizantes do reintegracionismo, evitando assim que muitos deles tenham que
se sujeitar aos ditames das editoras galegas submissas à “norma” da RAG;
- os autores galegos reintegracionistas
ou simpatizantes do reintegracionismo, sempre que constrangidos pelas editoras
galegas a publicar os seus textos na “norma” da RAG, procurem editoras
portuguesas, em especial as do Norte, para divulgação das suas obras.
não sei o que esta sugestão tem
de inexequível, porventura de demasiado sonhadora.
sei que todos ficaríamos a
ganhar.
as editoras portuguesas, e sobretudo as do Norte, pela riqueza intelectual,
cultural e artística que os autores galegos aportariam para o seu catálogo;
os
autores galegos pela visibilidade mundial que lhes traria a sua publicação na
forma escrita internacional daquela que é a sua e a nossa língua.
não sei o que esta sugestão tem
de inexequível, porventura de demasiado sonhadora.
mas um dia virá.
sábado, 14 de setembro de 2013
os independentistas maus e os bons independentes
de um modo geral, salvo honrosas e escassas exceções, a imprensa, a blogosfera e as "redes sociais" estão um susto. incomentáveis. de entre o que hoje li, vi e ouvi, apetece-me falar de uma espécie de opinião, segundo a qual "a independência da Catalunha não é um problema de Espanha, mas sim europeu, logo nosso, e um sinal da arrogância dos ricos em relação aos mais pobres".
compreendo. a Espanha não é uma manta de retalhos histórica, linguística e cultural como a Jugoslávia, nem pensar nisso. logo, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia e a Macedónia (Skopje) não deveriam também ser independentes. sobretudo a Eslovénia e, à escala, evidentemente, a sua "arrogância de rica". além disso, tal como na Jugoslávia, em que os novos estados independentes não têm fronteiras naturais entre si, em Espanha também não existem fronteiras naturais (seja isso o que for) com nenhuma das realidades nacionais presentes no Reino e, vejam lá, também não as tem com Portugal, que, por sua vez, tem um direito à independência que as outras realidades nacionais de Espanha (quer dizer, da Península Ibérica) não têm.
já quanto à arrogância dos ricos em relação aos mais pobres, como uma excelente razão para não se ser independente, acho que está na hora de os estados mais pobres da Europa retirarem a independência à Alemanha, à Suécia, à Noruega, à Dinamarca, à Finlândia, ao Luxemburgo, à Bélgica, à Holanda, sei lá.
e então, sim, ficava tudo a bater certo e exterminava-se a arrogância dos ricos em solo europeu. finalmente, não nos compete a nós pronunciar-nos sobre uma questão que só diz respeito a um único povo: o Catalão. nem tampouco aos restantes espanhois. a independência não se dá, conquista-se. e não me consta que os "espanhois" fossem ouvidos a respeito da independência de Portugal. os catalães querem ser independentes? estão no seu pleníssimo direito. tudo o mais só depende deles.
uma nota final:
é curiosa a argumentação segundo a qual os povos ricos não têm direito à independência porque têm o dever de solidariedade com o todo do qual se querem separar. é que se o povo for pobre também não tem direito à independência porque tem falta de "viabilidade económica". isto é, ninguém tem, pelo menos hoje, o direito a autodeterminar-se e a ser independente. assim como está é que está bem. ou seja, conservadorismo radical. já agora, o que significa, afinal, ser independente no contexto europeu? no caso da Catalunha, do País Basco, da Escócia, entre outras realidades novas que se perfilam no horizonte, não significará tanto o desejo de isolamento e auto-suficiência, mas a vontade de participar de direito próprio e em igualdade de circunstâncias com os restantes estados europeus no projeto da União Europeia, sem a intermediação de realidades políticas que os exploram e oprimem.
compreendo. a Espanha não é uma manta de retalhos histórica, linguística e cultural como a Jugoslávia, nem pensar nisso. logo, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia e a Macedónia (Skopje) não deveriam também ser independentes. sobretudo a Eslovénia e, à escala, evidentemente, a sua "arrogância de rica". além disso, tal como na Jugoslávia, em que os novos estados independentes não têm fronteiras naturais entre si, em Espanha também não existem fronteiras naturais (seja isso o que for) com nenhuma das realidades nacionais presentes no Reino e, vejam lá, também não as tem com Portugal, que, por sua vez, tem um direito à independência que as outras realidades nacionais de Espanha (quer dizer, da Península Ibérica) não têm.
já quanto à arrogância dos ricos em relação aos mais pobres, como uma excelente razão para não se ser independente, acho que está na hora de os estados mais pobres da Europa retirarem a independência à Alemanha, à Suécia, à Noruega, à Dinamarca, à Finlândia, ao Luxemburgo, à Bélgica, à Holanda, sei lá.
e então, sim, ficava tudo a bater certo e exterminava-se a arrogância dos ricos em solo europeu. finalmente, não nos compete a nós pronunciar-nos sobre uma questão que só diz respeito a um único povo: o Catalão. nem tampouco aos restantes espanhois. a independência não se dá, conquista-se. e não me consta que os "espanhois" fossem ouvidos a respeito da independência de Portugal. os catalães querem ser independentes? estão no seu pleníssimo direito. tudo o mais só depende deles.
uma nota final:
é curiosa a argumentação segundo a qual os povos ricos não têm direito à independência porque têm o dever de solidariedade com o todo do qual se querem separar. é que se o povo for pobre também não tem direito à independência porque tem falta de "viabilidade económica". isto é, ninguém tem, pelo menos hoje, o direito a autodeterminar-se e a ser independente. assim como está é que está bem. ou seja, conservadorismo radical. já agora, o que significa, afinal, ser independente no contexto europeu? no caso da Catalunha, do País Basco, da Escócia, entre outras realidades novas que se perfilam no horizonte, não significará tanto o desejo de isolamento e auto-suficiência, mas a vontade de participar de direito próprio e em igualdade de circunstâncias com os restantes estados europeus no projeto da União Europeia, sem a intermediação de realidades políticas que os exploram e oprimem.
sábado, 17 de agosto de 2013
neojornalistas?
há uma certa clique jornalística, aparecida não sei de onde,
que descobriu os encantos do empobrecimento e da miséria de muitos e da
opulência de poucos, da exploração e do individualismo mais egoísta e
insolidário. começa a ser penoso ler certos jornais ou assistir a certos
comentários na televisão. e eu, que cresci num mundo igual ao que eles querem
implantar, começo a sentir-me um extraterrestre. acho que o meu mundo se não
morreu está em vias disso. e é que não tenho possibilidade de entender-me com o
mundo que me querem impingir.
até há pouco, havia aqueles neojornalistas que, pela sua manifesta
indigência intelectual, nos inspiravam pena ou até vontade de rir. mas agora
eles cresceram como cogumelos e têm uma prosódia um tudo nada menos cretina,
mais elaborada. a minha questão é: se esta gente não foi recrutada de entre os
alunos menos classificados e mais cábulas dos respetivos cursos universitários,
que universidades os formaram? que professores, até agora ocultos, lhes
incutiram semelhante ideologia? que diabo de escolas temos nós?
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