domingo, 10 de agosto de 2014

Diógenes e Alexandre

certo dia, Diógenes de Sinope, aquele que empunhava uma lanterna durante o dia porque andava à procura de "um homem" [que vivesse de acordo com a sua essência], encontrou-se com Alexandre Magno, "O Conquistador".
o grande general, dominado pela grandeza do filósofo, convidou-o a que lhe pedisse o que quisesse, que o seu desejo lhe seria satisfeito.
o filósofo respondeu-lhe:
- o meu maior desejo é que saias da minha frente, porque me tiras o sol...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

o Peixoto

a bem dizer, o peixinho vermelho não é meu, é da minha mais nova.
mas como ela só lhe liga para o ter, mais nada, sou eu que lhe dou de comer.
e até já lhe dei o nome: é o "Peixoto".
quando não tem fome não me liga nenhuma, anda pelo aquário como se nada fosse.
não sei se tem pensamentos ou sonhos ou ideias. não faço ideia do que lhe vai na cabeça. sei que se o chamo - "Peixoto!" - ele vem ter comigo e abre a boca como se quisesse falar.
parece ouvir-me atentamente. se entende ou não, é outra coisa.
mas quando está com fome, se me vê, fica excitado, mexe-se com vigor e determinação, parecendo pedir-me: "dá-me!"
vou buscar a latinha daquela mistela de asas de insetos e outras porcarias que ele adora, e logo se prepara para a refeição.
há dois dias que não lhe dava de comer.
hoje viu-me e ficou doido, pôs-se a fazer piruetas, parafusos e lúpingues. dei-lhe de comer. e continuou a fazer piruetas, parafusos e lúpingues. pensei: "está doido!"
afastei-me a ver no que dava. o espetáculo terminou.
era mesmo para mim toda aquela exibição? quem sabe?
por falar nisso: ele sabe mesmo que se chama "Peixoto", ou é só a maneira, a entoação e o timbre da minha voz?
vá lá o diabo saber.
mas que o "Peixoto" não é um peixe qualquer, isso não é.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Maria na China

Maria na China
lê poesia
de Camões e de Sofia
traquina
a Maria
arde sem se ver
entre lições e fantasia
podia ler
aquele poema
daquela musa suprema:
"ó lua que vais tão alta
redonda como um tamanco
ó Maria, traz cá a escada
que eu não lhe chego c'um banco".
Maria não,
Dona Maria
professora
s'tora,
primeira dama
de Belém e Alfama
e arredores.

terça-feira, 29 de abril de 2014

nada

quis fazer um poema
sem tema
e saiu-me um poema
cujo tema
é não ter tema
não se pode falar sobre o nada
porque o nada aparece
como coisa
e onde poisa
tece.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

a APA e as "mental ilnesses"

de uma só penada, a APA (American Psychiatric Association) brindou-nos com duas novidades. a primeira é que o tirar "selfies", fotografias a si próprio através de telemóveis, é uma doença e sendo doença é tratável. a segunda é que o "fundamentalismo religioso" pode vir a ser tratado como doença mental.
a questão é mais preocupante do que cómica. na verdade,
poderá o fundamentalismo religioso vir a ser "tratado" como uma doença mental? poder pode. pode é "tratar-se" uma coisa que não é doença. poderão "outras formas de crenças ideológicas potencialmente prejudiciais para a sociedade" vir a ser tratadas como doenças? poder podem. pode é "tratar-se" coisas que não são doenças.
poderá a homossexualidade ser "tratada" como uma doença mental? poder pôde, mas já não é doença.
poderá a mania de tirar "selfies" ser chamada doença mental? pelos vistos pode. APA dixit. diz, está dito.
estou safo. não preciso de "tratamento", nem de uma "doença" nem de "outras". 

mas...a psiquiatria no papel de polícia de costumes ou censora oficial? faltava-me essa...


domingo, 15 de dezembro de 2013

o avô José da Cunha

o avô José da Cunha era um homem engraçado. tinha a testa alta e direita e usava bigode tipo galego, diferente do bigode francês do avô Rodrigues.
não tenho a mínima ideia dele, tinha 2 anos quando ele morreu, mas o que se conta dele e o que se pode analisar dá para entender alguma coisa.
chamava-se apenas "José da Cunha", era um excelente marceneiro, homem de obra grande e resistente. fazia armários que eram autênticas casas. muita da sua mobília ainda hoje subsiste.
trabalhou bastantes anos no Porto e aí convenceram-no a arranjar um nome sonante, mais afidalgado. não era indicado ter só nome e sobrenome, era melhor ter um nome mais comprido. nesse tempo não havia Registo Civil e podia-se alterar o nome em qualquer altura. e, assim, pôde acrescentar ao "José da Cunha" um sobrenome de família: Fernandes.
mas ninguém o conhecia nem por José da Cunha, nem por José da Cunha Fernandes, nem por Fernandes. como era de Guimarães, todos lhe chamavam no Porto o "senhor Guimarães". e vai daí, oficializou o nome por que era conhecido e passou a ser "José da Cunha Fernandes Guimarães". um nome majestoso, como convinha mais ao seu porte.
tinha outras coisas.
aos filhos deu nomes começados por A e por E, e apenas um começado por M:

Adelaide
António
Arlindo
Arménio

Elisa
Ermelinda
Etelvina

Maria

diz-se que impunha respeito.
mas há sempre quem ache que respeito é uma coisa e medo é outra.
certo dia, à mesa da ceia, crescia uma algazarra fora dos critérios de tolerabilidade do meu avô Cunha. o qual, com solenidade bastante, terá dito:
 - não quero ouvir nem mais um pio!!
eis senão quando, se ouve, vinda lá do seu cantinho, a vozinha subversiva da então pequena Ermelinda:
- piiiuuui....

risada geral. dizem que o meu avô, sem perder a compostura, também se riu de vontade.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

as Ordens profissionais

as ordens profissionais são instituições de natureza corporativa que têm por função preparar, creditar e regular o exercício de uma profissão liberal, conceder o estatuto de especialista ou perito diferenciado a alguns dos seus membros, regulamentar as relações entre profissionais do mesmo ofício e estabelecer regras de boas práticas e princípios de natureza deontológica e ética próprios da sua atividade. 
com o tempo, algumas dessas profissões liberais evoluíram para estatutos profissionais diversos, por vezes sobrepostos. 
os profissionais liberais tornaram-se também profissionais assalariados, ora como funcionários públicos, ora como funcionários de instituições privadas, muitas vezes propriedade de outros profissionais da mesma profissão. e as ordens, entre elas a dos médicos e a dos advogados, começaram a oscilar entre intervenções e preocupações de natureza profissional liberal e intervenções e preocupações de natureza sindical - umas coloridas com tintas de sindicatos públicos, outras com tintas de sindicatos do setor privado. 
em boa verdade, deixaram de ser "Ordens", no sentido exato do termo. 
dado que, com o passar do tempo e a evolução das sociedades, os filiados de algumas Ordens [como a dos médicos e a dos advogados] passaram a ser predominantemente assalariados, elas começaram, na prática, a assumir funções cada vez mais sindicais, deixando para trás as suas atribuições originais. 
em casos mais recentes, outras Ordens profissionais emanaram e cresceram a partir de sindicatos, o que está em contradição com as necessidades históricas da criação de estruturas reguladoras de profissões livres. 
mas a sindicalização das Ordens é a sua morte. 
os sindicatos fazem isso melhor e com menos entraves, confusões e hipocrisias. 
este enfraquecimento das Ordens manifesta-se em múltiplas perdas e sucessivas desautorizações. designadamente, já nem sequer têm voz nem achamento na determinação do valor dos atos profissionais praticados pelos seus membros, assistindo-se a uma desvalorização progressiva do seu preço. 
atadas de pés e mãos, já sem a sorte grande, resta-lhes a terminação: a ética [ou melhor, a estética ou arte de bem parecer] e o poder de punir. que, curiosamente, partilham com as tutelas, as entidades patronais privadas, a comunicação social e os tribunais.
talvez por isso, os bastonários, os portadores do bastão, se venham multiplicando, hoje em dia, em declarações bombásticas de um reinvindicacionismo e de um radicalismo infantis, que só acrescentam ridículo ao que já não tem substância.

Ordens? passo.