sexta-feira, 26 de setembro de 2014

denúncia anónima

a denúncia anónima vem, geralmente, de alguém muito próximo, conhecedor e quiçá participante dos segredos do denunciado, alguém, que, pelas múltiplas e variantes circunstâncias da vida, se sente prejudicado, preterido ou, eventualmente, humilhado pela pessoa que denuncia.  alguém que continua a tratar o denunciado como "amigo". a desculpa para o anonimato da denúncia é basicamente a mesma: o receio das retaliações. o que, é bom de ver, acaba de acontecer com a própria denúncia.
o que têm as denúncias anónimas é que nunca são inocentes nem desprovidas de alguma espécie de motivação pessoal. o que importa não é o apuramento da "verdade", seja ela o que for, o que importa é tramar o denunciado.
as denúncias anónimas são por vezes abundantes em pormenores, porque o denunciante está muito por dentro da questão, e os factos denunciados têm a caraterística de parecerem muito mal, independentemente do seu enquadramento jurídico, ético ou moral.
mas o que a denúncia anónima nunca deveria ter é aceitabilidade. é uma cultura que deveria ser banida de uma vez por todas. denúncia anónima deveria ir, pura e simplesmente, para o lixo. quem tenha factos para revelar, quem tenha algo a denunciar que dê a cara. sempre as coisas pareceriam mais sérias e verdadeiramente mais interessadas em banir a corrupção do que, simplesmente, em dar cabo da credibilidade e da vida pública do denunciado.
é claro que isto vem a propósito de acontecimentos recentes. mas também vem a propósito de muitos outros acontecimentos mais antigos.

domingo, 10 de agosto de 2014

Hegésias de Cirene e a morte dos outros

Hegésias de Cirene achava que a felicidade é um objetivo impossível, pelo que as pessoas sensatas o melhor que têm a fazer é livrar-se da dor e do sofrimento, nada havendo melhor do que a morte. 
assim, levou muitos jovens ao suicídio. 
tendo chegado aos 80 anos da sua vida, perguntaram-lhe por que razão não fazia ele aquilo que pregava. 


a resposta não se fez esperar: 
- sou o único grego que pode conduzir os jovens ao prazer delicioso da morte. se morro, ninguém tomará o meu lugar...

Diógenes e Alexandre

certo dia, Diógenes de Sinope, aquele que empunhava uma lanterna durante o dia porque andava à procura de "um homem" [que vivesse de acordo com a sua essência], encontrou-se com Alexandre Magno, "O Conquistador".
o grande general, dominado pela grandeza do filósofo, convidou-o a que lhe pedisse o que quisesse, que o seu desejo lhe seria satisfeito.
o filósofo respondeu-lhe:
- o meu maior desejo é que saias da minha frente, porque me tiras o sol...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

o Peixoto

a bem dizer, o peixinho vermelho não é meu, é da minha mais nova.
mas como ela só lhe liga para o ter, mais nada, sou eu que lhe dou de comer.
e até já lhe dei o nome: é o "Peixoto".
quando não tem fome não me liga nenhuma, anda pelo aquário como se nada fosse.
não sei se tem pensamentos ou sonhos ou ideias. não faço ideia do que lhe vai na cabeça. sei que se o chamo - "Peixoto!" - ele vem ter comigo e abre a boca como se quisesse falar.
parece ouvir-me atentamente. se entende ou não, é outra coisa.
mas quando está com fome, se me vê, fica excitado, mexe-se com vigor e determinação, parecendo pedir-me: "dá-me!"
vou buscar a latinha daquela mistela de asas de insetos e outras porcarias que ele adora, e logo se prepara para a refeição.
há dois dias que não lhe dava de comer.
hoje viu-me e ficou doido, pôs-se a fazer piruetas, parafusos e lúpingues. dei-lhe de comer. e continuou a fazer piruetas, parafusos e lúpingues. pensei: "está doido!"
afastei-me a ver no que dava. o espetáculo terminou.
era mesmo para mim toda aquela exibição? quem sabe?
por falar nisso: ele sabe mesmo que se chama "Peixoto", ou é só a maneira, a entoação e o timbre da minha voz?
vá lá o diabo saber.
mas que o "Peixoto" não é um peixe qualquer, isso não é.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Maria na China

Maria na China
lê poesia
de Camões e de Sofia
traquina
a Maria
arde sem se ver
entre lições e fantasia
podia ler
aquele poema
daquela musa suprema:
"ó lua que vais tão alta
redonda como um tamanco
ó Maria, traz cá a escada
que eu não lhe chego c'um banco".
Maria não,
Dona Maria
professora
s'tora,
primeira dama
de Belém e Alfama
e arredores.

terça-feira, 29 de abril de 2014

nada

quis fazer um poema
sem tema
e saiu-me um poema
cujo tema
é não ter tema
não se pode falar sobre o nada
porque o nada aparece
como coisa
e onde poisa
tece.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

a APA e as "mental ilnesses"

de uma só penada, a APA (American Psychiatric Association) brindou-nos com duas novidades. a primeira é que o tirar "selfies", fotografias a si próprio através de telemóveis, é uma doença e sendo doença é tratável. a segunda é que o "fundamentalismo religioso" pode vir a ser tratado como doença mental.
a questão é mais preocupante do que cómica. na verdade,
poderá o fundamentalismo religioso vir a ser "tratado" como uma doença mental? poder pode. pode é "tratar-se" uma coisa que não é doença. poderão "outras formas de crenças ideológicas potencialmente prejudiciais para a sociedade" vir a ser tratadas como doenças? poder podem. pode é "tratar-se" coisas que não são doenças.
poderá a homossexualidade ser "tratada" como uma doença mental? poder pôde, mas já não é doença.
poderá a mania de tirar "selfies" ser chamada doença mental? pelos vistos pode. APA dixit. diz, está dito.
estou safo. não preciso de "tratamento", nem de uma "doença" nem de "outras". 

mas...a psiquiatria no papel de polícia de costumes ou censora oficial? faltava-me essa...