quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

uma questão de sorte

desta vez, o "Reliquias Farmacêuticas" levou-me para uma terra distante no tempo, terra onde eu era um rapazito novo.
certo dia cresceu-me um cravo no queixo. fui ao barbeiro para cortar o cabelo. o hominho mirou-me o queixo e disse: eu tiro-lhe esse cravo, se quiser. está bem, se acha que sim - respondi-lhe.
passou a navalha, pôs a "pedra" por cima da ferida e zás, adeus cravo.
mas sei de um rapaz da minha escola que não teve tanta sorte. arranjou um abcesso num calcanhar, coisa fácil de arranjar naquele tempo, no qual se encontrava um prego, um arame, um espinho, uma pedra com muita facilidade, mas em que era muito mais difícil encontrar medidas de higiene próprias antes ou depois de as coisas acontecerem. também lhe coube em sorte um barbeiro. só que o cavalheiro lhe cortou o abcesso e o tendão de Aquiles.
e o pobre do rapaz ficou manco e bem manco para toda a vida. e nessa época não havia queixas de negligência nem de má prática. era assim e pronto. uma questão de sorte.


sábado, 3 de outubro de 2015

período de reflexão

tenho 24 horas para reletir. mas não me ocorre nada sobre que refletir.
costuma acontecer sempre que sou obrigado a refletir. acabo por não refletir coisa nenhuma.
é que, primeiro, eu não sou nenhum espelho. e depois, se eu refletisse a sério, as pessoas viam as minhas coisas com a direita para a esquerda e com a esquerda para a direita.
como acontece em todos os reflexos.
e eu não estou para isso.


sábado, 13 de junho de 2015

santo antónio

ó meu rico Santo António,
que te haviam de arranjar,
a fama de casamenteiro
sem teres noiva pra casar.

ao que eu sei levas ao colo
um menino rechonchudo.
não sei quem é a mãe dele
nem se és o pai do miúdo.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

a construção de uma lenda

a publicação na íntegra do interrogatório de Sócrates para revisão da medida de coação é o último dos sinais da bandalheira a que chegou a Justiça em Portugal. 
se é para obter a condenação por falta de provas, se é para castigar porque sim, temos justiça caseira, justiça à moda dos autos-de-fé; 
se é para alimentar o sensacionalismo, temos de saber quem recolhe os lucros e porquê. 
uma coisa parece certa: para fazer justiça não será. 


e o que era preciso era que não houvesse qualquer dúvida, quer em matéria de provas quer em matéria de procedimentos. que não houvesse um tratamento privilegiado de certos jornalistas em relação a outros, levando boa gente a pensar que certas notícias são obtidas em condições pessoalmente especiais. 
e, acima de tudo, que não se tratasse um homem pior do que se trata todos os outros apenas por ser político e ser uma pessoa para queimar na praça pública. 
posso preocupar-me. amanhã pode ser comigo ou com qualquer amigo meu. ninguém pode sentir-se a salvo com esta justiça ou lá que é. 
e para dizer tudo o que me vai na alma, talvez não seja inteligente levar um homem para onde ele quer que o levem: para o terreno da lenda.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

bancos alimentares


o Estado leva-nos 40% ou mais do que ganhamos, supostamente para levar a cabo políticas sociais, de redistribuição da riqueza e de erradicação da pobreza. 
as grandes superfícies comerciais levam o lucro do que lhes compramos, seja para nós seja para dar de esmola. e o Estado cobra o respetivo IVA. 
e vejo com revolta que toda a gente continua a cair na esparrela. que os "bancos alimentares" ou lá que é, continuam estacionados nas grandes superfícies comerciais, colaborando no lucro dos hipermercados e do Estado e explorando o sentimentalismo do cidadão comum. 
e, é claro, com a nossa esmola nem resolvemos a fome dos esfomeados nem tiramos os pobres da pobreza. 
comida a ração que lhes toca da nossa dádiva, voltam de imediato a ter fome e continuam tão pobres como dantes. 
a solução da pobreza é política, dá trabalho, pelo menos obriga-nos a votar de maneira a correr com as cabeças do sistema. 
talvez não estejamos para isso. entorpecer a consciência é o que está a dar. 
damos a nossa esmolinha. não tiramos ninguém da pobreza nem da fome, damos a ganhar às grandes superfícies e ao Estado. 
e assim é que está certo. somos uns trouxas.

PS: às vezes apetece fazer como Jesus Cristo e correr à chicotada os novos vendilhões do templo...



sábado, 1 de novembro de 2014

requiem

"requiem" quer dizer "descanso" e consiste num cerimonial e numa música destinada aos mortos recentes, acabadinhos de morrer ou mortos há poucos dias.
vem da ideia de que morrer é descansar.
infelizmente, é um descanso muito cansativo, como estar de férias mais de três semanas seguidas.
por isso, os mortos ao fim de trinta dias devem ficar fartos de tanto descanso. digo eu.
e se virmos que se trata de um descanso eterno, a coisa torna-se uma condenação, uma pena perpétua propriamente dita. um inferno.
podia haver uns intervalos de vez em quando. uma espécie de jubilação com direito a fazer uns biscates. sempre era mais animado.
deus, vê lá isso...



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Francisco e o Big Bang

o papa Francisco diz que o Big Bang não é incompatível com as teorias da criação e que estas não são incompatíveis com as teorias da evolução, que deus não é um mágico com uma varinha de condão.
e eu acho que o Papa Francisco tem razão. 
Big Bang e criação divina são a mesma crença por palavras diferentes. ambas acreditam que do nada se criaram todas as coisas. acho até muito interessante a discussão entre as duas correntes de pensamento, que, acreditando na mesma coisa, disputam entre si apenas por palavras. 
e eu nisso sou um ignorante. nem sei se do nada se criaram todas as coisas ou se todas as coisas aparentes se criaram a partir de um tudo que não para de mexer e remexer. um tudo de onde tudo sai. um tudo que é a inteligência e o plano arquitetónico de si próprio. 
se é deus ou não deus pouco me importa. é uma questão de palavras. sei que cada uma das partes tem os seus teóricos, sacerdotes e papas. Hawking de um lado, Francisco do outro. mas muito mais perto do que se podia imaginar. 
o que me admira não é que Francisco diga o que diz. o que me admira é que certa ciência o não veja e se contente com uma explosão de coisa nenhuma.
já tenho escrito sobre isto por mais que uma vez. e quanto mais escrevo e penso, mais me convenço.