sábado, 5 de outubro de 2019

Itaguaí


Itaguaí, que na língua dos índios tupi-guarani significa “baía das pedras barrentas”, é uma cidade do Estado do Rio de Janeiro, situada a cerca de 70 quilómetros da capital estadual.
não sei se é a mesma Itaguaí de que nos fala Machado de Assis, no seu livro “O Alienista”, mas pode bem ser, pois que o autor faz a esposa da principal personagem viajar ida e volta ao Rio de Janeiro numa viagem de alguns dias, em pleno séc. XIX.
seja como for, toda a trama da pequena novela se passa na cidade de Itaguaí, cidadezinha arrumada onde tudo funcionava sem incidentes de maior, até lá chegar Simão Bacamarte, alienista de profissão, ou, como diríamos hoje, médico psiquiatra. Bacamarte chega enfeitado com os melhores títulos da universidade de Coimbra e toda a gente na cidade lhe reconhece o prestígio.
entre os mais relevantes munícipes da cidade destaca-se o boticário (ou farmacêutico), o padre, a mulher do alienista, a mulher do boticário, os dois barbeiros rivais, os vereadores Freitas e Galvão.

Personagens principais:
alienista – Simão Bacamarte
padre Lopes
boticário – Crispim Soares
prefeito
louco - licenciado Garcia
juiz de fora
advogado Salustiano
1º barbeiro – Porfírio ou “Canjica” – Porfírio Caetano das Neves
2º barbeiro – João Pina
albardeiro - Mateus
herdeiro
Costa
Coelho
José Borges
Gil Bernardes
Couto Leme
estudante – Martim Brito
vereador Sebastião Freitas
vereador Galvão
esposa de Simão Bacamarte – Dona Evarista
esposa do Boticário – Dona Cesária


uma vez empossado da licença, Simão Bacamarte logo começou a construir um casarão com janelas verdes. como era a única casa com janelas verdes naquela cidade, ficou logo conhecida por Casa Verde.
Simão Bacamarte começou então a recolher pessoas que ele classificava como loucas. 
de todas as vilas e lugares vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação, sendo que o Alienista ia aumentando o tamanho das instalações.
o problema teve início quando, depois dos vagabundos, delirantes e alucinados de todos os lugares, Simão Bacamarte começou a recolher na Casa Verde pessoas estimáveis e importantes da cidade, como o albardeiro Mateus, o Costa, o Coelho, o José Borges, o Gil Bernardes, o Couto Leme, o estudante Martim Brito, o Prefeito da cidade, acabando na própria esposa, a Dona Evarista.
a cidade revolta-se, sob a chefia do barbeiro Porfírio, também conhecido por “Canjica”, tomando a revolta o nome de “revolta dos canjicas”.
depois do êxito inicial, o barbeiro Porfírio Caetano das Neves torna-se o “Protetor da Vila em nome de Sua Majestade e do Povo”. porém, a revolta é dominada e Porfírio é internado na Casa Verde.
nova revolta, desta vez chefiada pelo barbeiro João Pina, acaba da mesma maneira.
chegou-se a um ponto em que quatro quintos da população de Itaguaí estavam instalados na Casa Verde.
Simão Bacamarte faz, então uma observação estatística: se há muito mais gente louca que normal, então é porque ele tem visto o problema ao contrário, quer dizer, o normal é ter algum desvio de pensamento ou de comportamento e o que é patológico é só ter qualidades boas.
dá alta a todos os internados por “loucura”.
Itaguaí regressa à calma anterior e tudo volta à normalidade.
o alienista passa, então a internar na Casa Verde todas as pessoas de boas qualidades, que se achassem no perfeito equilíbrio das faculdades mentais, distribuindo-as pela sua principal caraterística. 
pelo sim pelo não, os vereadores conseguem aprovar uma cláusula segundo a qual nenhum deles poderia ser recolhido no asilo de alienados. o vereador Galvão reclamou dessa exceção, pois que nem todos os vereadores eram bons da cabeça, e logo foi internado. os restantes vereadores escaparam, dado que, para Simão Bacamarte, era óbvio que não tinham o juízo todo.
deu-se então início ao tratamento dos novos hóspedes: os modestos, os tolerantes, os verdadeiros, os simples, os leais, os magnânimos, os sagazes, os sinceros, e assim por diante.
o tratamento consistia em atacar de frente a qualidade predominante de cada internado, tentando obter orgulho e vaidade nos modestos, por exemplo. o resultado foi que ao fim de cinco meses e meio estavam todos curados e a Casa Verde ficou vazia.
mas o alienista não ficou contente com o seu êxito terapêutico, antes ficou preocupado: toda essa gente curada estaria realmente doida, ou aquilo que pareceu cura não era mais que o perfeito desequilíbrio do cérebro? na verdade, a cura não passava de pôr a nu um sentimento ou uma faculdade que já existiam na pessoa, ainda que em estado latente. moral da estória: não havia loucos em Itaguaí. Itaguaí não possuía um único cérebro concertado.
quem teria, pois, em si mesmo, todas as caraterísticas do perfeito equilíbrio mental e moral, a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um rematado mentecapto?
querem mesmo saber? leiam o livrinho...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

a violência doméstica

a mulher foi para longe uns tempos, numa de cooperação internacional. soube-se, depois, que não fez cooperação sozinha, levou o amante com ela.
enquanto isso, o pai ficou em casa com os filhos.
quando a mulher regressou da sua epopeia, pediu o divórcio.
a senhora queria ficar com os filhos, mas os filhos não queriam ir com ela.
um belo dia, estava ela a querer enfiar os miúdos no carro à força.
mas eles não queriam ir.
pediu a quem estava a ver que chamasse a polícia, porque, dizia ela em altos gritos, o pai não deixava os filhos ir com ela.
ninguém lhe ligou. o pai nem sequer estava ali.
e assim se entende um caso flagrantíssimo de violência doméstica.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

o "julgamento"


decorre em Madrid o "julgamento" dos presos políticos catalães.
invejo a serenidade e a elevação com que os políticos catalães respondem a quem os interpela.
mas sempre digo que os presos políticos catalães deveriam falar em catalão e nunca em castelhano.
o que provocaria uma de duas coisas: ou inviabilizavam o julgamento, por ninguém reconhecer a língua do outro, ou obrigariam o tribunal a servir-se de tradutores. e ficava claro que uma nação estava a julgar a outra.
assim, de algum modo, e talvez inadvertidamente, os presos políticos catalães estão a reconhecer a soberania espanhola.

o abuso sexual


há cerca de 80 anos, andava ele no seminário, já com as primeiras ordenações. era subdiácono.
parece que tinha uma namorada. pelo menos era o que ela pensava e mais queria.
mas a coisa não atava nem desatava, prosseguindo ele, garbosamente, a sua carreira de seminarista, a caminho de padre completo.
já naquela altura, a moça, atenta aos clichés do futuro, não esteve com meias medidas: escreveu ao bispo. que era um caso de abuso sexual, etc. e tal.
ele foi expulso do seminário e perdeu-se um padre. e um namorado dela também.
e ainda bem...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

uma questão de sorte

desta vez, o "Reliquias Farmacêuticas" levou-me para uma terra distante no tempo, terra onde eu era um rapazito novo.
certo dia cresceu-me um cravo no queixo. fui ao barbeiro para cortar o cabelo. o hominho mirou-me o queixo e disse: eu tiro-lhe esse cravo, se quiser. está bem, se acha que sim - respondi-lhe.
passou a navalha, pôs a "pedra" por cima da ferida e zás, adeus cravo.
mas sei de um rapaz da minha escola que não teve tanta sorte. arranjou um abcesso num calcanhar, coisa fácil de arranjar naquele tempo, no qual se encontrava um prego, um arame, um espinho, uma pedra com muita facilidade, mas em que era muito mais difícil encontrar medidas de higiene próprias antes ou depois de as coisas acontecerem. também lhe coube em sorte um barbeiro. só que o cavalheiro lhe cortou o abcesso e o tendão de Aquiles.
e o pobre do rapaz ficou manco e bem manco para toda a vida. e nessa época não havia queixas de negligência nem de má prática. era assim e pronto. uma questão de sorte.


sábado, 3 de outubro de 2015

período de reflexão

tenho 24 horas para refletir. mas não me ocorre nada sobre que refletir.
costuma acontecer sempre que sou obrigado a refletir. acabo por não refletir coisa nenhuma.
é que, primeiro, eu não sou nenhum espelho. e depois, se eu refletisse a sério, as pessoas viam as minhas coisas com a direita para a esquerda e com a esquerda para a direita.
como acontece em todos os reflexos.
e eu não estou para isso.


sábado, 13 de junho de 2015

santo antónio

ó meu rico Santo António,
que te haviam de arranjar,
a fama de casamenteiro
sem teres noiva pra casar.

ao que eu sei levas ao colo
um menino rechonchudo.
não sei quem é a mãe dele
nem se és o pai do miúdo.